Horizonte Crítico https://horizontecritico.bocadurna.cv Fri, 08 May 2026 10:05:13 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://horizontecritico.bocadurna.cv/wp-content/uploads/2023/10/cropped-Frame-3-1-32x32.png Horizonte Crítico https://horizontecritico.bocadurna.cv 32 32 A Língua como Compromisso: quem está disposto a assumir? https://horizontecritico.bocadurna.cv/2026/05/a-lingua-como-compromisso-quem-esta-disposto-a-assumir/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=a-lingua-como-compromisso-quem-esta-disposto-a-assumir Fri, 08 May 2026 09:57:59 +0000 https://horizontecritico.bocadurna.cv/?p=227724 O mito persistente Em Cabo Verde, persiste uma crença de...

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Num momento em que Cabo Verde se aproxima de mais um ciclo eleitoral decisivo, multiplicam-se discursos de mudança, promessas de desenvolvimento e apelos à renovação política. No entanto, há matérias estruturais da vida coletiva que não podem continuar a ser tratadas no plano das intenções vagas ou das formulações genéricas. A política linguística é uma delas.

Durante décadas, a questão da língua em Cabo Verde tem sido marcada por um paradoxo persistente: uma prática social consolidada, em que o crioulo cabo-verdiano ocupa um lugar central na comunicação e na identidade coletiva, língua principal das campanhas políticas, coexistindo com uma ausência de enquadramento jurídico claro, coerente e operacional. Esta ambiguidade tem consequências concretas no sistema educativo, na administração pública, na justiça e na produção de conhecimento.

Não se trata de um tema novo. Em 2015, o Estado cabo-verdiano assumiu formalmente, através da Resolução n.º 32/2015, o compromisso de promover a valorização da língua nacional. Esse momento representou um reconhecimento político importante. Contudo, a experiência subsequente demonstrou que a vontade política, quando não acompanhada de instrumentos jurídicos vinculativos e de fundamentação científica adequada, tende a esgotar-se em declarações de princípio.

Mais de uma década depois, persistem os mesmos impasses: dificuldades na implementação de modelos de ensino bilingue consistentes, ausência de terminologia técnica consolidada em crioulo para áreas essenciais do Estado e tensões recorrentes em torno de propostas de normação linguística que não conseguem gerar consenso social.

A realidade atual coloca-nos perante um ponto de viragem. Ao contrário do que sucedia no passado, já não se pode invocar a inexistência de caminhos possíveis. O debate acumulado, a investigação produzida e as propostas já apresentadas permitem afirmar que existem hoje condições para uma abordagem estruturada, progressiva e cientificamente sustentada da política linguística.

É neste contexto que se impõe uma questão simples, mas decisiva, aos candidatos ao próximo Parlamento: estão dispostos a assumir um compromisso claro com a criação de um quadro legal estruturado para a política linguística em Cabo Verde?

Esse compromisso não pode ser meramente retórico. Ele traduz-se, no mínimo, em três dimensões fundamentais.

Em primeiro lugar, a assunção da necessidade de uma Lei-Quadro da Política Linguística, enquanto instrumento de definição de princípios, direitos e orientações estratégicas, à semelhança do que já sucede em áreas estruturantes como a educação ou a saúde. Sem esse enquadramento, a ação do Estado continuará sujeita à fragmentação, à descontinuidade e à improvisação.

Em segundo lugar, o reconhecimento da diversidade interna do crioulo cabo-verdiano como um valor a proteger juridicamente. Qualquer processo de normação ou oficialização que ignore a pluralidade de variedades insulares corre o risco de gerar exclusão, resistência social e fragilização do próprio projeto linguístico nacional.

Em terceiro lugar, a rejeição de abordagens baseadas na imposição administrativa de normas linguísticas, substituindo-as por processos de construção gradual, assentes na didatização, na investigação científica e na participação das comunidades falantes.

A língua não é apenas um símbolo identitário. É um instrumento de acesso ao conhecimento, de exercício de direitos e de funcionamento do próprio Estado. Um sistema educativo que não integra de forma estruturada a língua materna dos alunos compromete a sua eficácia. Uma administração que não comunica plenamente com os cidadãos limita a sua legitimidade. Um sistema judicial que não dispõe de instrumentos linguísticos adequados enfrenta constrangimentos práticos evidentes.

Perante este cenário, o silêncio já não é uma opção confortável. A ausência de posição equivale, na prática, à manutenção do estado atual de indefinição.

Mais do que declarações de intenção, o país precisa de compromissos verificáveis. A política linguística não pode continuar a ser um tema periférico, mobilizado apenas em momentos simbólicos. Deve ser assumida como uma dimensão central da construção do Estado e do desenvolvimento nacional.

A questão que se coloca aos candidatos é, portanto, direta: estão dispostos a transformar a língua num verdadeiro compromisso político, com tradução legislativa e impacto concreto na vida dos cidadãos?

A resposta a esta pergunta dirá muito sobre o tipo de país que se pretende construir.

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A política começa na escolha do partido https://horizontecritico.bocadurna.cv/2026/04/a-politica-comeca-na-escolha-do-partido/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=a-politica-comeca-na-escolha-do-partido Thu, 16 Apr 2026 11:39:00 +0000 https://horizontecritico.bocadurna.cv/?p=227713 A política começa na escolha do partido Critérios, valores e...

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A política começa na escolha do partido Critérios, valores e identidade partidária como base da responsabilidade democrática

O momento político que vivemos, marcado pela elaboração de listas e por movimentos de reposicionamento, trouxe para o espaço público uma discussão que merece ser tratada com muita atenção: os critérios que orientam a escolha partidária e o papel dos partidos na organização da democracia.

Tem-se assistido, com alguma frequência, a uma narrativa que procura relativizar a centralidade dos partidos políticos, apresentando-os como estruturas excessivamente dominantes ou como obstáculos à afirmação individual. Esta leitura, ainda que encontre eco em experiências concretas, não tem pernas para resistir a uma análise mais rigorosa do funcionamento das democracias representativas. 

Como sublinhou Elmer Eric Schattschneider, a democracia moderna é impensável sem partidos políticos. O próprio autor foi mais longe ao defender que “o conflito e a competição partidária são elementos vitais para uma democracia representativa efetiva e inclusiva”. Não se trata, portanto, de uma imperfeição do sistema, mas de uma das suas condições de funcionamento. 

Os partidos são o espaço onde os interesses se estruturam, onde as ideias se agregam e onde as propostas ganham forma. São também o mecanismo através do qual o eleitor interpreta o sistema político e faz escolhas com base em referências identificáveis. 

É neste quadro que se estabelece o Pacto de Representação. O cidadão não escolhe apenas uma pessoa. Escolhe um projeto político, uma visão de sociedade e um conjunto de compromissos assumidos coletivamente. O eleito atua enquadrado por esse projeto, respondendo não apenas à sua vontade individual, mas a uma orientação política que lhe confere sentido e responsabilidade. 

A qualidade desse pacto depende, em grande medida, da forma como escolhemos. Em Cabo Verde, essa escolha continua muitas vezes condicionada por fatores que pertencem mais ao domínio da experiência pessoal do que ao da reflexão política. A tradição familiar, a identificação emocional, episódios do passado ou circunstâncias individuais acabam por influenciar decisões que deveriam ser orientadas por critérios mais estruturantes. 

Uma escolha política com impacto coletivo exige outro nível de exigência. 

Escolher um partido implica reconhecer o quadro de valores que o orienta, compreender o seu posicionamento ideológico e avaliar o projeto de sociedade que propõe. Implica, também, perceber como esses elementos se traduzem na ação política. 

Neste plano, a identidade partidária assume um papel determinante. 

O MpD construiu, ao longo do tempo, uma identidade assente na valorização da liberdade individual, na economia de mercado, na abertura ao mundo e na promoção de um Estado moderno, orientado para a criação de oportunidades. O PAICV, com um percurso histórico próprio, estrutura a sua ação numa matriz em que o Estado assume uma presença mais central na organização económica e social. 

Estas diferenças são estruturantes. Permitem ao eleitor compreender o que está em causa e fazer escolhas com base em referências consistentes. 

É também neste contexto que se evidencia uma fragilidade no sistema político: a ausência de uma identidade claramente definida em alguns partidos. No caso da UCID, essa indefinição torna-se particularmente relevante. Não é evidente o seu posicionamento ideológico, nem o projeto de sociedade que propõe de forma consistente. 

E essa clareza é essencial. Sem ela, a escolha deixa de ser orientada por referências políticas estruturadas e passa a depender, em larga medida, da circunstância. 

A pertença a um partido político insere-se neste quadro de exigência. Trata-se de uma decisão livre, como deve ser em qualquer democracia. Mas essa liberdade adquire significado quando é exercida com consciência do que está em causa. Não comecei o meu percurso político onde hoje me encontro. Cheguei aqui por convicção, construída ao longo do tempo, através do confronto de ideias, da reflexão e da necessidade de alinhar a minha participação política com um conjunto de valores e princípios. 

Esse percurso permitiu-me compreender algo essencial: a liberdade de escolher um partido político só ganha verdadeiro significado quando é exercida com base em critérios certos. Quando assenta numa leitura consciente do que cada partido representa, do projeto de sociedade que propõe e do papel que queremos desempenhar nesse processo coletivo. 

É essa exigência que dá densidade à escolha. É essa exigência que transforma uma decisão individual num compromisso político. 

A vida partidária implica debate, divergência e construção. Implica a participação em processos que conduzem à formação de uma vontade coletiva que, por natureza, não coincide integralmente com as posições individuais. É nesse espaço que se afirma a responsabilidade política e se constrói a liderança. 

Quando essa dimensão coletiva é substituída por uma lógica estritamente individual, a relação com o partido perde consistência e o compromisso tende a diluir-se. Os partidos deixam de ser comunidades políticas estruturadas e passam a ser espaços de circulação circunstancial, com impacto direto na confiança que os cidadãos depositam no sistema. 

A discussão sobre o alegado excesso de poder dos partidos talvez devesse, por isso, ser recentrada. O desafio reside na preservação da sua identidade, da sua coerência e da sua capacidade de representar projetos políticos consistentes. 

A política exige, em cada momento, um exercício de responsabilidade que começa na forma como escolhemos e naquilo que escolhemos representar. 

Num tempo em que a volatilidade tende a substituir a consistência e em que a circunstância procura ocupar o lugar da convicção, torna-se ainda mais relevante afirmar critérios, preservar identidades e reforçar a ideia de compromisso político como base da confiança democrática

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Prostituição Política – Parte II https://horizontecritico.bocadurna.cv/2026/03/prostituicao-politica-parte-ii/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=prostituicao-politica-parte-ii Sat, 21 Mar 2026 14:53:19 +0000 https://horizontecritico.bocadurna.cv/?p=227706 No dia 20 de janeiro de 2026, escrevi um artigo...

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No dia 20 de janeiro de 2026, escrevi um artigo sobre a prostituição política em Cabo Verde. Nele, parti da minha experiência individual, marcada por episódios de assédio sexual, como ponto de entrada para uma reflexão mais ampla sobre o sistema patriarcal e misógino profundamente enraizado na nossa cultura.

Tinha consciência de que uma abordagem puramente estrutural sobre a construção social da sexualidade poderia não gerar o impacto desejado. Por isso, optei por um caminho mais pessoal: expor a minha própria vivência dentro dessa estrutura. Acredito que, ao humanizar o debate, se torna mais fácil mobilizar a atenção e provocar reflexão.

O artigo alcançou mais de 15.000 leitores e gerou inúmeras reações. Recebi mensagens de várias mulheres que partilharam histórias semelhantes às minhas, algumas ainda mais graves. Esses relatos não me surpreenderam, pois conheço a realidade sociocultural do nosso país. Por outro lado, também recebi mensagens de homens que reconheceram a importância do tema e elogiaram a coragem da exposição. No entanto, um dos momentos mais marcantes foi receber uma mensagem de um homem que me havia assediado quando eu tinha 19 anos. Esse episódio reforçou a profundidade e a complexidade do problema na nossa sociedade.

Uma parte do artigo gerou controvérsia, sobretudo entre mulheres, por eu afirmar explicitamente que existem casos em que algumas mulheres, inseridas em determinadas instituições, acabam por aceitar, ou adaptar-se, às dinâmicas que associam poder e sexualidade como forma de alcançar benefícios profissionais ou financeiros. Essa afirmação não pretende culpabilizar, mas sim abrir espaço para uma reflexão mais profunda: o que leva uma mulher a tomar esse tipo de decisão?

As mulheres não são origem do sistema, mas podem ser agentes da sua reprodução.

É fundamental compreender que esses comportamentos não surgem no vazio. São, em grande medida, o resultado de uma construção social específica, moldada por gerações de educação e condicionamento sobre o papel da mulher na sociedade. Trata-se de um fenómeno que precisa ser analisado com seriedade, discutido abertamente e, sobretudo, desconstruído.

Outro aspeto preocupante foi o interesse de algumas pessoas em obter nomes de supostos assediadores. Na maioria dos casos, essa curiosidade não parecia orientada para a busca de justiça ou transformação social, mas sim para o sensacionalismo. Esse tipo de abordagem desvia o foco do problema estrutural e dificulta a construção de soluções sustentáveis.

Tenho plena consciência da complexidade da construção social que nos envolve, especialmente no contexto cabo-verdiano. Somos uma sociedade com raízes históricas profundas, marcadas por um passado escravocrata, onde a violência, incluindo a violência sexual, esteve na base das relações de poder. Esse legado histórico ainda se reflete na atualidade, manifestando-se em casos recorrentes de assédio, abuso, pedofilia e violação sexual.

Vivemos, portanto, numa cultura onde a misoginia está estruturalmente enraizada, sustentada por uma lógica patriarcal que molda comportamentos, expectativas e relações sociais. A isto soma-se um forte tabu em torno da discussão destes temas. O silêncio social não apenas perpetua o problema, como também dificulta qualquer tentativa de resolução.

Um dos aspetos mais inquietantes é a evidente dissonância cognitiva entre a forma como o assédio sexual e a violação sexual são percebidos. Frequentemente, são tratados como fenómenos distintos, sem qualquer relação entre si. Essa separação revela o grau de normalização do assédio sexual na nossa cultura, ao mesmo tempo que se condenam, de forma seletiva, os casos mais extremos de violência sexual.

Essa contradição torna-se ainda mais evidente quando figuras de poder vêm a público condenar veementemente a violência sexual, mas, em contextos privados, utilizam a sua posição para exercer dominação e obter favores sexuais. Se isto não é dissonância cognitiva, então é, no mínimo, uma profunda incoerência moral e social.

É urgente romper com o silêncio, questionar as estruturas e promover uma transformação cultural que permita não apenas reconhecer o problema, mas enfrentá-lo de forma consciente e coletiva.

Após a escrita do meu artigo, não esperava qualquer reação institucional. Muito menos de mulheres que ocupam cargos de liderança.

E não por falta de capacidade.
Mas porque, na maioria dos casos, o telhado é de vidro.

O jogo de interesses não permite posicionamentos reais. Não permite ruturas. Não permite coragem.

E assim, muitas dessas “princesas” do poder escolhem o silêncio.

No primeiro artigo, terminei com a história do Rei Jon Snow. Desta vez, terminarei com a história da sua Rainha. Mas antes, há reflexões que não podem ser ignoradas.

Durante a minha vivência partidária em Cabo Verde, observei durante muito tempo o comportamento e o pensamento feminino nesses espaços. E a verdade é dura: em muitos casos, esse pensamento não se manifesta de forma autónoma.

O que existe é adaptação.
Silêncio.
E, por vezes, cumplicidade.

Recordo-me de um episódio particularmente marcante. Durante uma visita às regiões de Santiago Sul, observei um deputado a comportar-se de forma absolutamente descontrolada, “como um cachorro descompensado atrás de uma cadela.”

Não há forma mais honesta de descrever aquela cena. E talvez o desconforto causado por estas palavras diga mais sobre a nossa tolerância social do que sobre a linguagem em si.

Em determinado momento, esse mesmo homem dirige-se a mim e diz:
“Se algum dia tiveres intenção de te tornar vereadora, eu posso influenciar e fazer isso acontecer para ti.”

Eu tinha 21 anos.

Uma jovem ainda no início da licenciatura, a tentar compreender o que é política, e, de repente, já era considerada “apta” para um cargo público.

A questão que permanece até hoje é inevitável: era a minha competência, ou o meu corpo?

Nunca saberei.
Mas também nunca aceitei.

O mais perturbador, no entanto, não foi apenas o comportamento dele.

Foi o que veio depois.

Uma líder feminina, com peso e influência, assistiu à toda a cena. Viu. Percebeu. Entendeu exatamente o que estava a acontecer.

E riu.

Riu, comentou, banalizou. Como se aquilo fosse apenas mais um episódio normal dentro daquele espaço.

E é aqui que a reflexão se torna ainda mais dura: quando a violência simbólica deixa de chocar, ela deixa de ser exceção, passa a ser cultura.

É essa mesma mulher que hoje apresenta políticas públicas de segurança para mulheres.

Como devemos chamar isso?

Falso moralismo?
Dissonância cognitiva?
Ou simplesmente adaptação ao sistema?

Talvez o nome não seja o mais importante.

O essencial é compreender o que isto revela: não basta ter mulheres no poder, é preciso questionar que consciência essas mulheres carregam para dentro dele.

Porque, sem desconstrução, o sistema mantém-se.
Apenas muda de rosto.

E isso exige um nível de questionamento muito mais profundo.

Toda mulher inserida nesses espaços precisa confrontar o modelo em que está inserida. Um modelo que não foi desenhado por nós. Um modelo que não foi pensado para o nosso equilíbrio. Um modelo que continua, na sua base, a servir uma lógica masculina de poder.

Com as eleições a aproximarem-se, especialmente num contexto de lei da paridade, a pergunta torna-se inevitável: que tipo de mulheres estão a entrar nesses espaços?

Porque não estamos apenas a falar de política.
Estamos a falar de um sistema patriarcal político, construído por homens, para homens. E entrar nesse sistema sem o questionar profundamente é, muitas vezes, apenas perpetuá-lo.

Agora vamos voltar para a história de Jon Snow.

O Rei, por norma, tem a sua Rainha. Poderia até chamar a Rainha de Khaleesi, mas não, a Khaleesi era mulher por si só, a sua ascensão ao trono consistia nela própria, não por causa dos feitos de Jon Snow. Então, aqui, ela será apenas a Rainha de Jon Snow.

A Rainha de Jon Snow tem noção clara de que o Rei, apesar de ser Rei, é um cachorro mal disciplinado a nível sexual. Anos e anos de educação dentro da monarquia para se tornar realeza, mas a disciplina espiritual sexual sempre foi uma matéria na qual não conseguia sair bem em nenhum aspeto.

E atenção: não pensem que esta disciplina não é importante se queremos ter uma monarquia com qualidade e elevação.

A Rainha sabia que a existência de uma jovem, bela e com uma certa liberdade mental era motivo de distração para Jon Snow.

Ela sabia que a menina era um “prato” bastante plausível para ser servido num banquete do Rei, um banquete para o qual, claramente, a Rainha não seria chamada.

A Rainha, apesar de ser rainha, não consegue ter coragem de desafiar o Rei. Não consegue ter a estrutura necessária para questioná-lo sobre os seus comportamentos promíscuos e misóginos.

O que a Rainha escolhe fazer é tentar trapacear a vida da pobre súbdita, que se tem esforçado por ser alguém por meritocracia. O “mal” da menina foi ser jovem e bela.

Ou seja, é a menina que tem de pagar pela indisciplina espiritual sexual do Rei.

Ela assume-se como Rainha, mas não consegue desafiar o seu próprio Rei?

O que Michelle Obama, Simone de Beauvoir, Bell hooks ou a Imperatriz Menen Asfaw, esposa do Imperador Haile Selassie I, diriam sobre o comportamento desta Rainha?

Queria eu que Cleópatra estivesse viva para trocarmos ideias sobre este assunto.

Mas é esta mesma Rainha que vem ao seu povo com o discurso mais belo e motivador: que temos de reunir condições para cuidar e proteger as meninas do nosso reino, desse sistema monárquico e patriarcal.

Mas, no final do dia, a Rainha nem consegue questionar ou desafiar a indisciplina espiritual sexual do Rei que dorme ao seu lado.

Porque, afinal, a Rainha de Jon Snow não é uma Khaleesi.

Ela simplesmente existe por causa das virtudes de Jon Snow.

Essas reflexões e questionamentos não surgiram de repente; começaram muito antes dos meus 18 anos, numa infância e adolescência marcada pela observação silenciosa de comportamentos, estruturas e padrões que hoje consigo nomear. Ao longo do tempo, fui adquirindo ferramentas, de leitura, análise e escrita, que me permitem compreender melhor a sociedade na qual fui concebida e refletir sobre ela com mais profundidade.

A escrita tem sido a minha forma de comunicar este desafio. Pode parecer apenas uma gota no oceano, mas sei que é gota sobre gota que o oceano se enche. E é assim que acredito que mudanças reais podem começar, com coragem, com voz própria, com questionamento permanente.

Tenho a pretensão de ser mãe algum dia, independentemente de ter uma menina ou um rapaz. E quando me for perguntado por eles sobre os desafios da nossa sociedade, quero poder responder sem recorrer ao conformismo ou à covardia. Quero que saibam que é possível reconhecer a estrutura do poder, questioná-la, e agir de forma consciente, mesmo quando o sistema parece imutável.

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Desenvolver competências: uma estratégia para destacar-se no mundo profissional https://horizontecritico.bocadurna.cv/2026/03/desenvolver-competencias-uma-estrategia-para-destacar-se-no-mundo-profissional/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=desenvolver-competencias-uma-estrategia-para-destacar-se-no-mundo-profissional Mon, 16 Mar 2026 10:45:45 +0000 https://horizontecritico.bocadurna.cv/?p=227693 Vivemos num contexto de mudanças económicas, tecnológicas e institucionais contínuas,...

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Vivemos num contexto de mudanças económicas, tecnológicas e institucionais contínuas, que impõem desafios cada vez mais complexos aos profissionais e às organizações. Neste cenário, não é suficiente acumular conhecimento teórico: é fundamental desenvolver competências de forma contínua, estratégica e intencional.

Estudantes e profissionais que reconhecem cedo esta necessidade conseguem posicionar-se de forma diferenciada, preparar-se para os cenários que moldam o mercado contemporâneo e antecipar tendências emergentes. A capacidade de adaptação rápida, aliada ao pensamento crítico, é cada vez mais um fator determinante para a competitividade profissional.

Desde o ensino superior, observo a relevância do fortalecimento de competências técnicas, cognitivas e intelectuais. Mais do que a obtenção de diplomas, trata-se de aprimorar a capacidade de análise crítica, pensamento estratégico e adaptação a novas situações. Esta abordagem não é apenas académica; é prática e orientada para resultados. Profissionais que cultivam essas competências possuem maior capacidade de interpretar contextos complexos, tomar decisões fundamentadas e propor soluções inovadoras, mesmo diante de cenários imprevisíveis. Além disso, a integração de conhecimento teórico e experiência prática permite aos indivíduos antecipar problemas e propor estratégias mais eficientes, algo que se torna cada vez mais valorizado por empresas que operam em ambientes voláteis.

No desempenho das minhas funções enquanto profissional numa instituição do setor empresarial, constato que o desenvolvimento contínuo de competências se traduz em vantagem concreta. Competências analíticas, domínio de ferramentas estratégicas e compreensão das dinâmicas institucionais permitem enfrentar desafios, antecipar riscos e contribuir significativamente para o sucesso organizacional. Profissionais preparados não aguardam oportunidades; criam valor, geram impacto e demonstram relevância estratégica, mesmo em funções iniciais ou em equipes multidisciplinares. Essa proatividade é essencial, pois organizações modernas valorizam colaboradores que possam assumir responsabilidades, propor melhorias e contribuir para a inovação contínua.

A formação contínua apresenta também uma dimensão global. Competências interculturais, negociação e compreensão das dinâmicas internacionais são cada vez mais exigidas, mesmo em contextos locais.

Profissionais capazes de gerir relações multiculturais, interpretar normas globais e aplicar práticas de gestão internacional têm maior probabilidade de se destacar e influenciar decisões estratégicas. O desenvolvimento dessas habilidades durante a vida académica ou nos primeiros anos de carreira constitui uma base sólida para destacar-se num mercado altamente competitivo e em constante evolução. Por exemplo, a capacidade de adaptar estratégias de comunicação a diferentes culturas ou legislações internacionais pode ser determinante em projetos que envolvem parceiros estrangeiros, garantindo resultados mais consistentes e reduzindo riscos.

Outro aspeto relevante refere-se às habilidades socio emocionais, que incluem comunicação eficaz, liderança, gestão de conflitos e colaboração. Estas competências são determinantes para o desenvolvimento de ambientes de trabalho integrativos, produtivos e inovadores.

Profissionais que investem no autoconhecimento e na inteligência emocional conseguem gerir melhor o stress, conduzir projetos complexos e contribuir para a construção de culturas organizacionais saudáveis.

Mesmo iniciando a carreira, perceber a importância dessas competências é um diferencial estratégico para quem pretende ascender e gerar impacto. A prática de empatia, escuta ativa e assertividade permite não só resolver conflitos internos, mas também fortalecer relações com clientes e parceiros, aumentando a credibilidade profissional.

Importa salientar que o desenvolvimento de competências não é apenas responsabilidade individual. Instituições que promovem capacitação contínua fortalecem a inovação, melhoram a eficiência dos serviços e mantêm-se competitivas.

O investimento estratégico em formação representa, portanto, um compromisso pessoal e institucional simultâneo. Além disso, políticas de desenvolvimento contínuo estimulam o engajamento, a retenção de talentos e a criação de equipes resilientes, capazes de enfrentar mudanças rápidas e crises organizacionais com eficácia. Empresas que implementam programas estruturados de mentoring, workshops e treinamentos estratégicos não apenas fortalecem o capital humano, mas também criam vantagem competitiva sustentável a longo prazo.

O que diferencia profissionais bem-sucedidos é a mentalidade de aprendizagem contínua. Não se trata apenas de acumular formações ou certificados, mas de adotar uma postura ativa, curiosa e orientada para aplicação prática do conhecimento. Transformar aprendizagem em ação gera valor para o profissional, para a instituição e para a sociedade. Essa postura implica também monitorar tendências de mercado, desenvolver novas competências de acordo com as necessidades emergentes e buscar oportunidades de aplicação imediata do conhecimento adquirido. A capacidade de integrar teoria e prática é o que transforma competência em vantagem tangível.

Em última análise, desenvolver competências de forma sistemática não é apenas uma exigência do mercado; constitui uma estratégia para construir trajetórias profissionais sólidas e diferenciadas. Estudantes e jovens profissionais que adotam esta abordagem desde cedo estão mais bem preparados para enfrentar desafios contemporâneos e aproveitar oportunidades futuras. Investir em competências é investir na capacidade de transformar desafios em oportunidades, garantindo relevância, resiliência e impacto no mundo corporativo.

Ao reconhecer a necessidade de evolução constante, mesmo profissionais iniciantes podem antecipar demandas, adaptar-se a diferentes contextos e assumir papéis estratégicos em organizações. Assim, a competência deixa de ser apenas um conceito acadêmico e torna-se uma vantagem competitiva tangível, capaz de transformar trajetórias profissionais e gerar impacto real no mercado. A aprendizagem contínua, associada à experiência prática progressiva e ao desenvolvimento de habilidades críticas e socio emocionais, constitui o diferencial que distingue profissionais capazes de liderar, inovar e contribuir de forma significativa para o sucesso organizacional.

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O Paradoxo do Exclusivismo Linguístico e a Leitura Esquecida BICS, CALP e o mito das 4 horas de milagre pedagógico https://horizontecritico.bocadurna.cv/2026/03/o-paradoxo-do-exclusivismo-linguistico-e-a-leitura-esquecida-bics-calp-e-o-mito-das-4-horas-de-milagre-pedagogico/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-paradoxo-do-exclusivismo-linguistico-e-a-leitura-esquecida-bics-calp-e-o-mito-das-4-horas-de-milagre-pedagogico Mon, 09 Mar 2026 10:23:56 +0000 https://horizontecritico.bocadurna.cv/?p=227679 O mito persistente Em Cabo Verde, persiste uma crença de...

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O mito persistente

Em Cabo Verde, persiste uma crença de raiz colonial: a ideia de que o professor, falando exclusivamente português durante as 4 horas e 30 minutos de aula diária, pode produzir um milagre linguístico. A crença é simples: quanto mais português se fala na escola, mais rápido os alunos aprenderão português. Mas a realidade sociolinguística é
outra. A criança passa cerca de 12 horas por dia fora da escola num ambiente predominantemente crioulo. A escola dura 4h30. A linguagem escolar é, muitas vezes, repetitiva, restrita ao currículo e pouco ligada à vida quotidiana. Portanto, não se trata de uma oposição ideológica ao português. Trata-se de um problema de tempo de exposição qualificada, densidade textual e mediação cognitiva.

A crença no exclusivismo linguístico ignora aquilo que a investigação internacional em educação bilíngue demonstrou há décadas — especialmente o trabalho de Jim Cummins.

Competências Básicas de Comunicação Interpessoal (Basic Interpersonal Communicative Skills-BICS) e Proficiência Linguístic- Cognitiva de carater académica (Cognitive Academic Language Proficiency-CALP): a distinção fundamental

Cummins distingue duas dimensões da proficiência linguística: A chamada BICS – Basic Interpersonal Communicative Skills, que refere-se à linguagem do quotidiano, usada em contextos sociais e informais (ex: recreio, conversas com amigos). A BICS é caracterizada por termos da realidade quotidiana, é marcada pela economia e fluência conversacional típica da oralidade, é contextual e rica em pistas visuais e de aquisição relativamente rápida (de 1–3 anos em contextos de imersão comunitária)

CALP – Cognitive Academic Language Proficiency refere-se à linguagem necessária para o sucesso escolar, que envolve abstração, análise crítica e terminologia específica das disciplinas. Trata-se de uma linguagem mais complexa e descontextualizada, com textos técnicos, argumentativos e disciplinares que exigem certa capacidade de
inferência, síntese, comparação, análise. É de desenvolvimento lento (entre 5 a 10 anos em contextos de imersão comunitária). O erro estrutural do exclusivismo linguístico é confundir BICS com CALP.

Um aluno pode falar português de forma socialmente aceitável e, ainda assim, não compreender um texto de História, Ciências ou um enunciado matemático complexo.

É precisamente isto que acontece em Cabo Verde. Muitos alunos atingem BICS relativamente cedo; poucos atingem CALP até ao 8.º ano; um número significativo só desenvolve competência linguístico-académica no 10.º ou 12.º ano. De entre os que alcançam o 12º ano de escolaridade, alguns concluem o ensino secundário
permanecendo essencialmente no domínio da fluência superficial.

O paradoxo das 4 horas

Se a criança precisa de 5 a 7 anos de exposição consistente à linguagem académica para desenvolver CALP, como esperar que 4h30 diárias, com discurso oral repetitivo, de algum modo centrado no professor, sem literatura estruturada, sem leitura sistemática e sem recurso estratégico à língua materna, produzam resultados robustos?

Há que lembrar que a escola não é a família; a linguagem escolar não é a linguagem da vida; a repetição curricular não substitui exposição textual rica. Logo, o problema não é falar português. O problema é como se fala (o que se diz), com que densidade lexical, com que diversidade textual e com que suporte cognitivo.

A contribuição de Ana Josefa Cardoso no contexto cabo-verdiano

No panorama nacional, os estudos de Ana Josefa Cardoso que realizou uma experiência de ensino bilingue no ensino básico aprofundam a reflexão sobre o bilinguismo cabo- verdiano e a complexidade da escolarização em contexto diglóssico.

De entre outros aspectos, a experiência de Cardoso evidencia a centralidade da língua cabo-verdiana na construção identitária e cognitiva da criança incontornável; a tensão entre língua de escolarização e língua de socialização primária; a necessidade de políticas linguísticas que reconheçam a competência bilingue como recurso, não como
obstáculo.

Os seus trabalhos reforçam uma ideia fundamental: a literacia não é apenas aquisição de código; é construção de sentido. E essa construção exige ancoragem conceptual sólida, frequentemente estabelecida na língua materna.

A hipótese da leitura mediada associada a explicações em língua materna

A teoria da interdependência linguística de Cummins sustenta que existe uma competência subjacente comum e que as capacidades cognitivas desenvolvidas numa língua transferem-se para outra. Isto significa que desenvolver raciocínio abstrato em língua materna fortalece a base conceptual; que ler literatura em português, com mediação adequada, ainda que em língua materna, amplia o vocabulário académico e que discutir textos em L1 não impede a aprendizagem de L2. Pelo contrário, pode acelerá-la.

Quando a mediação pedagógica articula a leitura literária progressiva em português; a discussão interpretativa (inclusive em língua materna); a produção escrita orientada dramatização e recontagem; a exploração explícita de conectores e estruturas argumentativas, cria-se um ambiente propício ao desenvolvimento antecipado de CALP.

A projeção realista para Cabo Verde

Com articulação adequada entre leitura mediada e uso estratégico da língua materna, a BICS pode ser consolidada entre o 3.º e o 4.º ano, a CALP pode começar a estabilizar entre o 6.º e o 8.º ano e o tal nível B2 do QUAREP torna-se alcançável para a maioria dos alunos até o final do 2.º ciclo do Ensino Básico (treze e catorze anos de idade). 

Sem essa articulação, o cenário observado mantém-se no estado atual, ou seja, com a CALP tardia (10.º–12.º ano) ou estagnação no nível conversacional. Devemos referir que o QUAREP e as teorias de Jim Cummins se correspondem da seguinte forma

O Quadro de Referência do Ensino do Português (QUAREP) estabelece metas alinhadas ao CECR. A relação com Cummins é clara:

 

O nível B2 estipulado para o final do 8.º ano exige que o aluno consiga sintetizar informações de fontes diferentes; escrever textos claros e pormenorizados; argumentar com coesão. Isto é CALP. Logo, atingir B2 sem leitura sistemática e sem suporte conceptual em L1 é pedagogicamente improvável.

A leitura como variável esquecida
O debate público concentra-se na língua de instrução, mas negligencia a variável decisiva: quantidade e qualidade de leitura. Sendo a linguagem académica essencialmente linguagem escrita, se não houver exposição massiva a textos narrativos e argumentativos, familiaridade com conectores (“embora”, “portanto”, “contudo”), contacto com unidades fraseológicas, internalização de estruturas sintáticas complexas, não há CALP. Em tais circunstâncias, a oralidade exclusiva não produz literacia académica.

Conclusão

O exclusivismo linguístico constitui um paradoxo pedagógico: pretende acelerar a aprendizagem, mas ignora os mecanismos reais de aquisição da linguagem académica.

A verdadeira aceleração não reside na supressão da língua materna, mas na sua articulação estratégica com leitura sistemática, mediação metalinguística e progressão textual estruturada.

Não se trata de escolher entre crioulo e português. Trata-se de compreender que a competência académico cognitiva nasce da interação entre ambos.

Sem leitura, o português é superfície. Com leitura mediada e base conceptual sólida, transforma-se em instrumento de pensamento abstrato.

E é esse instrumento que define a verdadeira proficiência escolar.

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Este novo PAICV, UM Partido “BARBARIDO” e desligado da realidade? https://horizontecritico.bocadurna.cv/2026/02/este-novo-paicv-um-partido-barbarido-e-desligado-da-realidade/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=este-novo-paicv-um-partido-barbarido-e-desligado-da-realidade Tue, 24 Feb 2026 09:01:35 +0000 https://horizontecritico.bocadurna.cv/?p=227619 Nos últimos tempos, o discurso do Partido Africano da Independência...

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Nos últimos tempos, o discurso do Partido Africano da Independência de Cabo Verdemaior partido da oposição, tem sido marcado por uma crítica constante à governação atual do Movimento Para Democracia. Segundo o partido, o país está mal, o crescimento económico não é real e os dados apresentados pelo Governo não refletem a situação concreta das famílias.

Mas é aqui que surge uma pergunta simples e legítima: se o crescimento não existe, de onde vêm os recursos para as medidas recentemente implementadas por este governo?

Os novos PCFR que beneficiam professores, magistrados, médicos, enfermeiros e quadros da Polícia Judiciária não surgiram do nada. O aumento das pensões mínimas de velhice e invalidez para 9 mil escudos também não apareceu por geração espontânea ou um feitiço de magia. Não existe em Cabo Verde nenhuma máquina escondida a imprimir dinheiro. O Estado só distribui aquilo que consegue arrecadar ou financiar de forma sustentável. Convém olhar para os números. Em 2024, a economia cabo-verdiana registou um crescimento real do PIB na ordem dos 7 %, segundo dados de instituições internacionais. Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego recuou para cerca de 8 %, traduzindo uma melhoria efetiva no mercado de trabalho face ao ano anterior.

Mais do que isso, Cabo Verde foi recentemente reclassificado pelo Banco Mundial como país de rendimento médio-alto, com base na evolução do rendimento nacional bruto per capita. Essa distinção não é atribuída por decisão política interna, mas sim com base em critérios técnicos internacionais comparáveis entre países. Pode haver debate sobre a distribuição do crescimento, mas é difícil sustentar que ele simplesmente não existe quando há reconhecimento externo nesse sentido.

A verdade é que estas medidas resultam de planeamento orçamental e de uma estratégia de gestão das finanças públicas. Sob a liderança do Primeiro-Ministro Ulisses Correia e Silva, e com o trabalho técnico do Ministro das Finanças Olavo Correia, o Governo tem apresentado resultados macroeconómicos que, concorde-se ou não com o ritmo, mostram recuperação após crises sucessivas como a pandemia e os choques internacionais.

É legítimo que a oposição fiscalize. Democracia vive de escrutínio. Mas contestar todos os indicadores sem apresentar alternativas concretas fragiliza o debate público. Se os dados de crescimento são falsos, então que se explique, com números e fontes, onde está o erro. Se as políticas são inadequadas, que se apresentem propostas detalhadas e sustentáveis.

Criticar é fácil. Governar exige responsabilidade, escolhas difíceis e contas certas. O aumento das pensões mínimas pode ser visto como um símbolo. Para muitos idosos, 9 mil escudos não é luxo, é dignidade básica. E medidas como essa só são possíveis quando existe algum equilíbrio financeiro.

A questão central não é se o país enfrenta desafios, porque enfrenta. O custo de vida pesa. O desemprego preocupa. As desigualdades persistem. O ponto é outro: o discurso político deve ser sustentado por seriedade e visão estratégica.

Rúben Traquino

 

Cabo Verde precisa de uma oposição forte, mas também precisa de propostas credíveis. Prometer tudo a todos sem explicar como financiar é alimentar ilusões.

A confiança dos cabo-verdianos constrói-se com liderança estável, resultados mensuráveis e políticas sustentáveis. O debate deve elevar-se acima da retórica e focar-se em soluções concretas para o futuro do país.

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Da Escola ao Plenário: A juventude faz-se ouvir https://horizontecritico.bocadurna.cv/2026/02/da-escola-ao-plenarioa-juventude-faz-se-ouvir/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=da-escola-ao-plenarioa-juventude-faz-se-ouvir Sat, 14 Feb 2026 13:02:05 +0000 https://horizontecritico.bocadurna.cv/?p=227607 Há iniciativas que, pela sua aparente simplicidade, carregam um significado...

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Há iniciativas que, pela sua aparente simplicidade, carregam um significado político e simbólico profundo. A Assembleia Municipal Jovem da Praia é uma delas. Não se trata apenas de um exercício pedagógico ou de um evento pontual dirigido a estudantes do ensino secundário. Trata-se, sobretudo, de um gesto deliberado de aproximação entre a juventude e a democracia local, num tempo em que a política é frequentemente percebida como distante, complexa ou irrelevante para os mais jovens.

A primeira edição desta iniciativa, realizada na Biblioteca Nacional, revelou algo que muitas vezes se ignora no debate público: os jovens querem participar, querem compreender e querem ser ouvidos. Quando lhes é dado espaço, respondem com sentido crítico, responsabilidade e propostas concretas. A simulação de uma sessão plenária municipal permitiu-lhes conhecer, na prática, o funcionamento de um órgão deliberativo local, mas também experimentar a exigência do debate, da argumentação e da tomada de decisão coletiva.

Num contexto marcado por sinais evidentes de iliteracia política, transversal a várias faixas etárias, a Assembleia Municipal Jovem assume uma dimensão estruturante. A cidadania não se constrói apenas com discursos ou apelos genéricos à participação; constrói-se com práticas, com experiências reais e com o contacto direto com as instituições. Ao abrir as portas da Assembleia Municipal à juventude, o poder local deixa de ser uma abstração e passa a ser um espaço compreensível, próximo e, sobretudo, apropriável.

É igualmente significativo que os temas mais debatidos pelos jovens deputados municipais tenham incidido sobre questões concretas do quotidiano da Cidade da Praia, com destaque para o saneamento e a gestão dos resíduos sólidos. Longe de debates superficiais ou desconectados da realidade, os jovens demonstraram estar atentos aos problemas estruturais da cidade. O projeto vencedor, “Nos-Lixo”, apresentado por alunos do Centro Educativo Miraflores, é um exemplo claro dessa consciência cívica e ambiental, revelando preocupação com a qualidade de vida urbana e com a sustentabilidade.

Este dado merece reflexão. Muitas vezes acusa-se a juventude de alheamento ou desinteresse pelos assuntos públicos. No entanto, quando observamos iniciativas como esta, torna-se evidente que o problema não está na falta de interesse, mas na escassez de canais efetivos de participação. A juventude não rejeita a política; rejeita, isso sim, uma política que não dialoga, que não escuta e que não cria espaços de inclusão.

Do ponto de vista institucional, a ambição de institucionalizar a Assembleia Municipal Jovem e integrá-la no Regimento da Assembleia Municipal da Praia é um passo coerente e necessário. A participação juvenil não deve depender apenas da boa vontade circunstancial, mas ser assumida como parte integrante da arquitetura democrática local. Só assim se garante continuidade, impacto e credibilidade ao processo.

A democracia aprende-se fazendo. Aprende-se no confronto de ideias, no respeito pela diferença e na responsabilidade pelas decisões tomadas. Ao proporcionar essa experiência aos jovens, estamos a investir não só em futuros líderes, mas também na formação de cidadãos mais conscientes, críticos e exigentes no presente. E isso constitui, talvez, uma das formas mais sólidas e duradouras de fortalecer a democracia.

Uma cidade que cria espaços para escutar a sua juventude revela maturidade institucional e visão estratégica. A Assembleia Municipal Jovem da Praia mostrou que, quando se confia nos jovens e se lhes dá palco, eles respondem com sentido de responsabilidade e vontade de contribuir. Cabe agora às instituições consolidar este caminho e transformar esta experiência num verdadeiro laboratório permanente de cidadania.

Porque a democracia não se herda por decreto. Constrói-se, aprende-se e renova-se, começando, muitas vezes, na escola, mas ganhando sentido pleno no plenário. 

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LA MAGNA II  https://horizontecritico.bocadurna.cv/2026/02/la-magna-ii/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=la-magna-ii Thu, 12 Feb 2026 10:28:45 +0000 https://horizontecritico.bocadurna.cv/?p=227599 Adoto uma postura mais equânime possível, porque o que venho...

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Adoto uma postura mais equânime possível, porque o que venho a relatar é somente o Prefácio do Futuro. Não pretendo apresentar conjecturas ou idealizações, mas sim apontar de forma lúcida o que, inevitavelmente, acontecerá no seu tempo devido. O que se sabe é que a tudo é exigido diplomacia, paz e ordem. 

Nada do que aqui se afirma emerge do campo abstrato ou quimérico. Esta reflexão não é uma construção teórica desligada da realidade, mas fruto direto da práxis, da observação crítica dos processos históricos e da experiência concreta dos povos. É a partir do real – e apenas dele – que se pode falar seriamente do futuro. 

Cite um único país bom que o comunismo construiu? 

A teoria socialista permanece como uma das mais engenhosas tentativas intelectuais de organização económico-social já concebidas. Seu arcabouço analítico é sofisticado, sua crítica ao capital é profunda e sua promessa de justiça social é sedutora. Mas, quanto ao desenvolvimento real, linear e prático da sociedade esta teoria deixa muito a desejar, porque não consegue prevalecer de forma etérea, como pode se ver nos casos dos países que o adotaram: Zimbabwe de Robert Mugabe, Correia do Norte de Kim Jong-Un, URSS de Stalin e muitos outros que adotaram e adotam esta tese ideológica que, foram, e são, Estados autoritários, economicamente fragilizados e socialmente asfixiantes. Não se trata de demonizar uma teoria, mas de reconhecer um dado histórico essencial: nenhuma ideia, por mais brilhante, sobrevive quando ignora a complexidade humana. 

Agora, afiliar-se a um partido político jamais deveria transformar o outro em inimigo. Isso só torna uma oportunidade de elevação intelectual coletiva. O verdadeiro atraso instala-se quando se abandona o confronto de ideias e se passa ao ataque pessoal. 

E, enquanto, um único povo não poderemos mais adotar esta postura. O que deveremos fazer adiante é unir mentes, sendo os partidos que se encontrem na oposição adotar a postura, única e exclusivamente, de fiscalizador dos projetos e atuações atuais do partido no governo, e não um mero sabotador. Porque o maior prejudicado será o povo que tanto dizemos e orgulhamos em representar. 

Seria uma grande indigência mental não reconhecer os grandes pensadores e atuantes dos outros partidos. Mas, que fique claro é reconhecer e ter respeito aos que de forma simbólica contribuíram para o desenvolvimento do país e não os que de forma continua pretendem separar e retroceder as conquistas. Porque se aproveitam da figura de Cabral, mas poucos entendem realmente o que representava. A pessoa que tende a cindir a população, não merece citar o nome tão honrado quanto Cabral. Estando apenas usufruindo do resquício do partido originário. 

Já tivemos a independência de 75, a democracia de 91. E num futuro próximo e nas mãos dos jovens de hoje estaremos rumos ao terceiro marco. Ela exigirá uma redefinição profunda da nossa posição no mundo, da nossa relação com África e da nossa autopercepção enquanto povo. 

O inimigo comum não tem rosto, nem partido. É tudo aquilo que impede Kabu Verdi de se tornar uma potência decisória, económica e estratégica, em diálogo profundo com o continente africano e com relevância global. 

A maturidade nacional exige a capacidade de reconhecer que nem tudo o que vem do nosso campo político é virtuoso, assim como nem tudo o que vem do outro é nocivo. O progresso nasce da capacidade de selecionar criticamente o melhor do conhecimento acumulado, independentemente da sua origem partidária. 

Porém, não significa ignorar as diferenças em suas múltiplas dimensões, significa encontrar na diversidade, os pontos de confluência que possibilite a unidade. 

Somos filhos do CHRISTUS, Haile Selassie I e de Cabral 

Terá de ter um ponto bem esclarecido. Não há continente mais rico do que o Africano. Detém cerca de 30% das reservas minerais conhecidas do planeta, além de vastas reservas de ouro, diamantes, petróleo, gás natural, cobalto, platina, cobre e urânio. Possui biodiversidade incomparável, solos férteis, florestas extensas e alguns dos maiores sistemas fluviais do mundo. 

O paradoxo africano não é a escassez, mas a gestão histórica da abundância. Se potências externas exploram essas riquezas para nos subjugar, por que nós, africanos – e cabo-verdianos em particular – não as utilizamos estrategicamente para o nosso próprio desenvolvimento? 

Persistimos no impulso quase que automático de migrar para a Europa e as Américas, mesmo quando somos recebidos com tarifas, barreiras e racismo explícito. Ignoramos, paradoxalmente, que temos livre acesso ao continente -mãe. 

Ao aceitar funções laborais, de baixo escalão nos países centrais, reforçamos uma narrativa silenciosa: a de que ainda não rompemos com as correntes mentais da colonização. 

A pergunta é dura, mas necessária: acreditamos que somos intelectualmente inferiores aos nossos irmãos africanos? ou somos reféns de um masoquismo histórico que nos empurra para onde não somos desejados? 

Uma nova rota 

Cabo-verdianos possuem capacidades intelectuais e disciplina para ocupar cargos de destaque na África, contribuindo para o desenvolvimento das comunidades e do continente, com salários dignos e qualidade de vida. O escudo cabo-verdiano tem peso suficiente para garantir estabilidade inicial em muitos países africanos, permitindo uma transição segura até a inserção profissional. 

As Américas são dos americanos, a Europa dos europeus. Iremos lá para estudar, viajar e trocar experiências. Mas, as nossas bases devem ser fortalecidas em África. Por que gastar fortunas em países que nos rejeitam, quando a mesma quantia pode assegurar maior estabilidade socioeconómica no nosso continente? 

O futuro exige uma postura nova: indelével, frugal e estratégica, orientada pelo longo prazo. Kabu Verdi deverá aprimorar ainda mais. O terceiro marco não será dado por acaso; será conquistado por uma geração que decidiu mudar a rota, investir na unidade e confiar na sua própria grandeza. 

Com isto termino dizendo, 

Deus connosco e Kabu Verdi no topo! 

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O crescimento económico e o seu impacto https://horizontecritico.bocadurna.cv/2026/02/o-crescimento-economico-e-o-seu-impacto/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-crescimento-economico-e-o-seu-impacto Wed, 11 Feb 2026 10:16:34 +0000 https://horizontecritico.bocadurna.cv/?p=227587 A economia cabo-verdiana tem apresentado uma tendência ascendente desde 2015...

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A economia cabo-verdiana tem apresentado uma tendência ascendente desde 2015 até à presente data, influenciada por diversas medidas do atual Governo. Se, anteriormente, a nossa economia crescia de forma tímida, hoje o cenário é completamente diferente.

O último relatório da agência de notação financeira Standard & Poor’s (S&P) elevou o rating de Cabo Verde de B para B+, impulsionado principalmente pelo aumento exponencial da procura turística e pelo crescimento das remessas dos emigrantes. Ultrapassámos um milhão de turistas por ano, provenientes maioritariamente do Reino Unido, Itália e Espanha. Este aumento contribuiu significativamente para a posição fiscal do país, permitindo ao Estado arrecadar mais impostos e financiar melhor as suas despesas. Por exemplo, a S&P prevê que haja excedentes primários do Governo Geral nos próximos anos, o que reduzirá o rácio da dívida em relação ao PIB, estimado em 105,5% em 2025.

Prevê-se um crescimento médio do PIB real per capita de 4,3% entre 2026 e 2029, valores superiores aos de diversos países. A dívida pública de Cabo Verde é, na sua maioria, concessionária, ou seja, de baixo juro e com longo prazo de amortização. O constante crescimento da economia visa reduzir progressivamente este risco.

Segundo os World Development Indicators do Banco Mundial, a economia cresceu, em média simples anual, 3,7% entre 2015 e 2025, incluindo a grande recessão de 2020, com um decréscimo de −20,8% provocado pela pandemia de COVID‑19, e a subsequente recuperação de 15,8%. Isto significa que, caso não tivesse ocorrido a pandemia, estaríamos ainda mais consolidados. Mesmo assim, os números demonstram que conseguimos relançar a economia e promover uma rápida recuperação. Segundo as projeções para 2026, o FMI prevê um crescimento de 4,8%, o Banco de Cabo Verde 5,3% e o AfDB estima um crescimento real de 4,9%, dependendo, contudo, da dinâmica do turismo, principal motor da economia.

Contudo, o crescimento económico não serve apenas para pagar dívidas ou procurar novo endividamento, mas sim para tomar decisões que impactem diretamente a vida das pessoas. Assim, relembra-nos da importância das políticas distributivas, que visam atribuir riqueza aos cidadãos e promover o bem-estar coletivo. É fruto deste crescimento que temos assistido a sucessivos aumentos salariais: o salário mínimo no setor público passou de 11 mil CVE para 19 mil CVE, enquanto no setor privado passou para 17 mil CVE. O salário médio também aumentou, beneficiando diversas classes profissionais, incluindo saúde, segurança e educação. Para além disso, o Governo prevê que, em 2027, o salário mínimo alcance 25 mil CVE, valores mais justos face ao aumento significativo do custo de vida. A pensão social para não contribuintes aumentou para 7 mil CVE.

Podemos afirmar também que o RSI – Rendimento Social de Inclusão, montante atribuído pelo Estado às famílias mais vulneráveis, se enquadra na relação causa-efeito do crescimento económico. O RSI, uma política pública redistributiva por excelência, insere-se no objetivo do Governo de erradicar a pobreza extrema até 2026, através do Fundo Mais. Uma das suas operações – a arrecadação ou pagamento aos serviços hoteleiros e a transferência para o Fundo, com gestão da entidade gestora – permite a transferência direta para as contas das famílias beneficiadas, oferecendo-lhes mais recursos e possibilitando, a médio prazo, a superação da pobreza extrema.

Hoje, temos também mais bolsas de estudo, por exemplo, 1.692 novos bolseiros no ano académico 2025/2026, totalizando 4.100 estudantes universitários beneficiados por bolsas do Governo. O financiamento de formações profissionais, também assegurado pelo Governo, beneficia milhares de jovens em todos os concelhos, poupando inúmeras famílias. O objetivo não é apenas obter certificados, mas proporcionar competências e condições para que os jovens sejam senhores dos seus destinos, com autonomia, dignidade e oportunidade.

Assim, inequivocamente, o crescimento económico tem refletido na melhoria da qualidade de vida dos cabo-verdianos. Contudo, isso não significa que tudo esteja consolidado; pelo contrário, o caminho é árduo e exige constância por parte de quem governa e colaboração de todos nós. Como disse John F. Kennedy: “Não perguntes o que a tua pátria pode fazer por ti. Pergunta o que tu podes fazer por ela.” Aqui, a lógica deve ser a mesma: se cada um fizer a sua parte, certamente o país dará passos mais largos e, no final do dia, todos sairemos a ganhar.

A minha tese é que Cabo Verde deve investir, por um lado, na descentralização da oferta turística, permitindo levar o turismo às outras ilhas. O turismo tem efeito transversal na economia, beneficiando operadores das outras ilhas que dizem ser esquecidas, embora congratulo o fato da ilha de São Vicente, pelo Upgrade na sua oferta turística.

Na área da energia, Cabo Verde continua vulnerável a fatores externos, como a volatilidade do preço do petróleo Brent, o que impacta a inflação da eletricidade. Como solução, sugiro um investimento massivo nas transições energéticas, com menor custo de produção, evitando impactos da inflação importada e reduzindo a pressão sobre as divisas no balanço de pagamentos. Isto tornaria a eletricidade mais barata para quem consume e para a produção em geral, visto que, a eletricidade é essencial para quase toda que produz. As ideias são muitas, mas por agora fico aqui.

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Prostituição política em Cabo Verde https://horizontecritico.bocadurna.cv/2026/01/prostituicao-politica-em-cabo-verde/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=prostituicao-politica-em-cabo-verde Tue, 20 Jan 2026 14:51:46 +0000 https://horizontecritico.bocadurna.cv/?p=227576 É tempo de escrever aquilo que muitos têm medo de...

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É tempo de escrever aquilo que muitos têm medo de escrever, tanto homens quanto mulheres, quando o assunto é sobre dinâmicas de poder e sexo nas instituições em Cabo Verde. Tenho apenas 28 anos de idade, e desde os 21 que frequento os ambientes partidários, institucionais, acadêmicos e políticos em Cabo Verde.

Muito cedo nesses ambientes fui vista como “carne fresca” no mercado. Assim é, e ainda são esses os olhares sobre mulheres jovens dentro desses espaços. Desde tenra idade, sempre tive interesse por política. Acabei por estudar, durante o meu período de universidade, um curso que tem a ver com política, e todas as minhas movimentações desde então têm sido sempre com a política presente em diferentes frentes.

A vulnerabilidade de ser bastante jovem e mulher dentro destas instituições não é fácil. Primeiramente, temos o fator da dinâmica de poder existente dentro de um sistema ainda patriarcal e extremamente machista, que ainda vê a mulher apenas como um corpo a ser usado e nada mais.

As histórias que tenho guardadas comigo dariam um livro tranquilamente, entre dinâmicas que envolvem a minha situação de ser mulher e jovem com homens que têm algum poder econômico e, principalmente, poder institucional em Cabo Verde. Sempre fui excelente aluna, aprendi muito cedo a exercitar meu cérebro e sempre entendi que ser mulher é muito mais do que ter um corpo; sempre entendi que podia pensar, refletir e usar meu raciocínio lógico em qualquer vertente que eu quisesse. Muito cedo compreendi que meu cérebro é o meu maior trunfo, por isso exercitá-lo é função sagrada para mim, e sempre fiz assim desde criança: pensar, estudar, refletir e raciocinar sempre foram meu passatempo favorito, graças ao meu pai, que me criou com este mantra desde que me entendo por gente neste Universo.

Eu talvez tenha tido o privilégio de ter esta educação específica por parte do meu pai, mas quantas outras mulheres não tiveram este modelo de educação?

Os assédios sexuais durante essas épocas eram violentos, mas o silêncio era pior — silenciamento por parte de homens, mas também por mulheres; alguns por medo, outros simplesmente por conveniência. Já fui empurrada tanto por homens como por mulheres para me prostituir com o objetivo de ter algo em troca, uma abordagem bem crua e agressiva que exigia que eu colocasse o meu corpo e disposição para ter algum benefício.

Não pensem que é fácil ser uma mulher jovem, estar com a mente concentrada e não se permitir ou deixar cair em situações do tipo. O teste é duro, e às vezes, por um fio, não conseguimos manter esta dignidade. Os teus valores e princípios têm que estar muito bem firmes no teu ser para não cair neste jogo de promiscuidade e prostituição. Não há outro nome para casos do tipo que não seja prostituição: pôr o teu corpo a serviço para ter em troca algo é prostituição, sim, seja ela indireta ou direta, e falo tanto de homens quanto de mulheres.

Tem um ex-professor universitário meu que até hoje não falamos; fiz um semestre inteiro da sua disciplina sentada dentro da sala sem conversarmos. Ele não estava à espera da minha reação no dia em que resolveu cruzar a linha. Encontrávamo-nos no corredor da universidade, e ele nem conseguia me encarar nos olhos. Já tive um deputado nacional a correr a mão nas minhas costas até em cima da minha bunda; outros já me convidam para passar férias em outras ilhas à custa do dinheiro público, claramente.

Ofertas de jantares, festas, dinheiro, presentes, sorrisos falsos, de cafetões políticos que têm uma única intenção: cair na fantasia ilusória de ter um corpo jovem apenas. Fui chamada por várias vezes de “exagerada”, “chata” ou até “imatura” por homens que estão sentados no nosso Parlamento até hoje e tomam decisões por nós todos os dias.

Imaginem o paradoxo: um homem com este pensamento a tomar alguma iniciativa de política pública feminina. Insano de pensar, não é? Será que homens que não sejam disciplinados sobre este assunto deveriam decidir por nós ou se quiserem nos representar? Faço apenas um questionamento, penso que devíamos questionar.

Quando estudei Relações Internacionais, aprendi que, para compreender o sistema internacional, utilizamos três vertentes: poder, dinheiro e sexo. Vivemos em épocas em que, em Cabo Verde, temos tido todo este discurso sobre paridade de gênero, lei da paridade, empoderamento feminino e outras questões.

Mais o problema torna-se mais complexo e desafiador quando, hoje em dia, temos mulheres jovens que entram nas instituições com o intuito de dar o corpo em oferta para conseguir trabalho ou cargo. São jovens meninas que têm mesmo essa intenção, de pôr-se à disposição corporal para ter algum benefício. Elas conseguem mesmo entrar nesses espaços, sem nenhuma meritocracia, sem nenhum esforço intelectual; o único requisito exigido é “pôr o corpo a serviço”.

Enquanto isso, a jovem mulher que estuda, esforça-se, aprimora suas habilidades, investiga, pensa, reflete e tenta ter alguma consistência mental é posta de lado pelo facto de ter escolhido não se deitar com algum homem que tenha algum tipo de poder. O esforço ainda é maior para sobreviver a situações do tipo, porque a maioria dos homens que alimentam esta mentalidade e a praticam, outros não concordam, mas preferem o silêncio. E quem aceita o silêncio em situações do tipo não é muito diferente do praticante; ainda para piorar, existem as “Marias” que, sem competência profissional ou intelectual, fazem-te frente pela escolha de se prostituir.

Onde fica o espaço para jovens mulheres que querem realmente conquistar os espaços pelo esforço intelectual? Por serem boas no seu trabalho e nas suas reflexões? Onde fica?

A mulher por si só já tem séculos de desvantagens quando falamos de dinâmicas de poder. Já avançamos muito, mas ainda há um longo caminho a percorrer para que possamos realmente criar espaços seguros, onde mulheres tenham ascensão de carreira dentro do meio político — e não só — sem necessidade de recorrer a situações do tipo, ou sentir-se obrigadas a cometer tais atos para ter algum reconhecimento.

O silêncio, até hoje, nunca ajudou nenhuma luta ou revolução em contextos sociais do tipo. Nosso processo histórico como nação prova de todas as formas que, através do silêncio, do esforço e da luta, nunca alcançaríamos a nossa liberdade. A paz sem voz não é paz; é simplesmente medo.

Temos que tomar bastante cuidado em vangloriar homens de altos cargos na nossa política apenas por terem fama de ter várias mulheres. Isso mostra claramente a mediocridade existente, não apenas em homens, mas principalmente em mulheres que assistem e dão glória ao homem que escolhe usar corpos femininos e depois descarta, como se fossem produtos de supermercado.

Lembre-se de tantas situações em conferências ou encontros: essas mulheres vão para tudo, menos para aprender. A meta mais importante é chegar ao fim para ter a migalha de atenção do homem com poder — um poder que o povo lhe deu, pois ele é funcionário público. Definitivamente, a “aura do poder” faz milagres e magias, trazendo ilusões.

Manter postura e integridade em meios desse tipo não é fácil; os testes são duros, as agressões são sujas, violentas, e o silenciamento é profundo.

Minha maior memória talvez seja quando rejeitei de forma firme as “virtudes” de JonSnow, um homem com um reinado de 20 anos, cheio de qualidades e excelência. Ninguém ainda, atualmente, em Cabo Verde conseguiu alcançar tal reinado dessa forma, e talvez nunca alguém venha a fazê-lo. Entre o paradoxo de iludir-se pela aura de poder ou aceitar o beijo que me foi pedido de forma nada elegante neste caso, escolhi dizer não. Não apenas um não por mim, mas por todas as mulheres que algum dia sentiram vulnerabilidade, medo de perder trabalho, ou pressão para abrir mão da própria dignidade.

Para garantir que jovens meninas possam ter estruturas seguras para exercer pensamento crítico de forma digna e íntegra, é necessário resistir todos os dias. Sendo jovem e mulher, não pensei que seria fácil dar essa resistência diariamente em um meio que ainda é extremamente masculino e patriarcal. Há que ter muita força e frieza na maior parte do tempo para gerir situações do tipo. O corpo pode apodrecer, mas a mente e o espírito permanecem livres, fortes e eternos.

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