Prostituição Política – Parte II

No dia 20 de janeiro de 2026, escrevi um artigo sobre a prostituição política em Cabo Verde. Nele, parti da minha experiência individual, marcada por episódios de assédio sexual, como ponto de entrada para uma reflexão mais ampla sobre o sistema patriarcal e misógino profundamente enraizado na nossa cultura.

Tinha consciência de que uma abordagem puramente estrutural sobre a construção social da sexualidade poderia não gerar o impacto desejado. Por isso, optei por um caminho mais pessoal: expor a minha própria vivência dentro dessa estrutura. Acredito que, ao humanizar o debate, se torna mais fácil mobilizar a atenção e provocar reflexão.

O artigo alcançou mais de 15.000 leitores e gerou inúmeras reações. Recebi mensagens de várias mulheres que partilharam histórias semelhantes às minhas, algumas ainda mais graves. Esses relatos não me surpreenderam, pois conheço a realidade sociocultural do nosso país. Por outro lado, também recebi mensagens de homens que reconheceram a importância do tema e elogiaram a coragem da exposição. No entanto, um dos momentos mais marcantes foi receber uma mensagem de um homem que me havia assediado quando eu tinha 19 anos. Esse episódio reforçou a profundidade e a complexidade do problema na nossa sociedade.

Uma parte do artigo gerou controvérsia, sobretudo entre mulheres, por eu afirmar explicitamente que existem casos em que algumas mulheres, inseridas em determinadas instituições, acabam por aceitar, ou adaptar-se, às dinâmicas que associam poder e sexualidade como forma de alcançar benefícios profissionais ou financeiros. Essa afirmação não pretende culpabilizar, mas sim abrir espaço para uma reflexão mais profunda: o que leva uma mulher a tomar esse tipo de decisão?

As mulheres não são origem do sistema, mas podem ser agentes da sua reprodução.

É fundamental compreender que esses comportamentos não surgem no vazio. São, em grande medida, o resultado de uma construção social específica, moldada por gerações de educação e condicionamento sobre o papel da mulher na sociedade. Trata-se de um fenómeno que precisa ser analisado com seriedade, discutido abertamente e, sobretudo, desconstruído.

Outro aspeto preocupante foi o interesse de algumas pessoas em obter nomes de supostos assediadores. Na maioria dos casos, essa curiosidade não parecia orientada para a busca de justiça ou transformação social, mas sim para o sensacionalismo. Esse tipo de abordagem desvia o foco do problema estrutural e dificulta a construção de soluções sustentáveis.

Tenho plena consciência da complexidade da construção social que nos envolve, especialmente no contexto cabo-verdiano. Somos uma sociedade com raízes históricas profundas, marcadas por um passado escravocrata, onde a violência, incluindo a violência sexual, esteve na base das relações de poder. Esse legado histórico ainda se reflete na atualidade, manifestando-se em casos recorrentes de assédio, abuso, pedofilia e violação sexual.

Vivemos, portanto, numa cultura onde a misoginia está estruturalmente enraizada, sustentada por uma lógica patriarcal que molda comportamentos, expectativas e relações sociais. A isto soma-se um forte tabu em torno da discussão destes temas. O silêncio social não apenas perpetua o problema, como também dificulta qualquer tentativa de resolução.

Um dos aspetos mais inquietantes é a evidente dissonância cognitiva entre a forma como o assédio sexual e a violação sexual são percebidos. Frequentemente, são tratados como fenómenos distintos, sem qualquer relação entre si. Essa separação revela o grau de normalização do assédio sexual na nossa cultura, ao mesmo tempo que se condenam, de forma seletiva, os casos mais extremos de violência sexual.

Essa contradição torna-se ainda mais evidente quando figuras de poder vêm a público condenar veementemente a violência sexual, mas, em contextos privados, utilizam a sua posição para exercer dominação e obter favores sexuais. Se isto não é dissonância cognitiva, então é, no mínimo, uma profunda incoerência moral e social.

É urgente romper com o silêncio, questionar as estruturas e promover uma transformação cultural que permita não apenas reconhecer o problema, mas enfrentá-lo de forma consciente e coletiva.

Após a escrita do meu artigo, não esperava qualquer reação institucional. Muito menos de mulheres que ocupam cargos de liderança.

E não por falta de capacidade.
Mas porque, na maioria dos casos, o telhado é de vidro.

O jogo de interesses não permite posicionamentos reais. Não permite ruturas. Não permite coragem.

E assim, muitas dessas “princesas” do poder escolhem o silêncio.

No primeiro artigo, terminei com a história do Rei Jon Snow. Desta vez, terminarei com a história da sua Rainha. Mas antes, há reflexões que não podem ser ignoradas.

Durante a minha vivência partidária em Cabo Verde, observei durante muito tempo o comportamento e o pensamento feminino nesses espaços. E a verdade é dura: em muitos casos, esse pensamento não se manifesta de forma autónoma.

O que existe é adaptação.
Silêncio.
E, por vezes, cumplicidade.

Recordo-me de um episódio particularmente marcante. Durante uma visita às regiões de Santiago Sul, observei um deputado a comportar-se de forma absolutamente descontrolada, “como um cachorro descompensado atrás de uma cadela.”

Não há forma mais honesta de descrever aquela cena. E talvez o desconforto causado por estas palavras diga mais sobre a nossa tolerância social do que sobre a linguagem em si.

Em determinado momento, esse mesmo homem dirige-se a mim e diz:
“Se algum dia tiveres intenção de te tornar vereadora, eu posso influenciar e fazer isso acontecer para ti.”

Eu tinha 21 anos.

Uma jovem ainda no início da licenciatura, a tentar compreender o que é política, e, de repente, já era considerada “apta” para um cargo público.

A questão que permanece até hoje é inevitável: era a minha competência, ou o meu corpo?

Nunca saberei.
Mas também nunca aceitei.

O mais perturbador, no entanto, não foi apenas o comportamento dele.

Foi o que veio depois.

Uma líder feminina, com peso e influência, assistiu à toda a cena. Viu. Percebeu. Entendeu exatamente o que estava a acontecer.

E riu.

Riu, comentou, banalizou. Como se aquilo fosse apenas mais um episódio normal dentro daquele espaço.

E é aqui que a reflexão se torna ainda mais dura: quando a violência simbólica deixa de chocar, ela deixa de ser exceção, passa a ser cultura.

É essa mesma mulher que hoje apresenta políticas públicas de segurança para mulheres.

Como devemos chamar isso?

Falso moralismo?
Dissonância cognitiva?
Ou simplesmente adaptação ao sistema?

Talvez o nome não seja o mais importante.

O essencial é compreender o que isto revela: não basta ter mulheres no poder, é preciso questionar que consciência essas mulheres carregam para dentro dele.

Porque, sem desconstrução, o sistema mantém-se.
Apenas muda de rosto.

E isso exige um nível de questionamento muito mais profundo.

Toda mulher inserida nesses espaços precisa confrontar o modelo em que está inserida. Um modelo que não foi desenhado por nós. Um modelo que não foi pensado para o nosso equilíbrio. Um modelo que continua, na sua base, a servir uma lógica masculina de poder.

Com as eleições a aproximarem-se, especialmente num contexto de lei da paridade, a pergunta torna-se inevitável: que tipo de mulheres estão a entrar nesses espaços?

Porque não estamos apenas a falar de política.
Estamos a falar de um sistema patriarcal político, construído por homens, para homens. E entrar nesse sistema sem o questionar profundamente é, muitas vezes, apenas perpetuá-lo.

Agora vamos voltar para a história de Jon Snow.

O Rei, por norma, tem a sua Rainha. Poderia até chamar a Rainha de Khaleesi, mas não, a Khaleesi era mulher por si só, a sua ascensão ao trono consistia nela própria, não por causa dos feitos de Jon Snow. Então, aqui, ela será apenas a Rainha de Jon Snow.

A Rainha de Jon Snow tem noção clara de que o Rei, apesar de ser Rei, é um cachorro mal disciplinado a nível sexual. Anos e anos de educação dentro da monarquia para se tornar realeza, mas a disciplina espiritual sexual sempre foi uma matéria na qual não conseguia sair bem em nenhum aspeto.

E atenção: não pensem que esta disciplina não é importante se queremos ter uma monarquia com qualidade e elevação.

A Rainha sabia que a existência de uma jovem, bela e com uma certa liberdade mental era motivo de distração para Jon Snow.

Ela sabia que a menina era um “prato” bastante plausível para ser servido num banquete do Rei, um banquete para o qual, claramente, a Rainha não seria chamada.

A Rainha, apesar de ser rainha, não consegue ter coragem de desafiar o Rei. Não consegue ter a estrutura necessária para questioná-lo sobre os seus comportamentos promíscuos e misóginos.

O que a Rainha escolhe fazer é tentar trapacear a vida da pobre súbdita, que se tem esforçado por ser alguém por meritocracia. O “mal” da menina foi ser jovem e bela.

Ou seja, é a menina que tem de pagar pela indisciplina espiritual sexual do Rei.

Ela assume-se como Rainha, mas não consegue desafiar o seu próprio Rei?

O que Michelle Obama, Simone de Beauvoir, Bell hooks ou a Imperatriz Menen Asfaw, esposa do Imperador Haile Selassie I, diriam sobre o comportamento desta Rainha?

Queria eu que Cleópatra estivesse viva para trocarmos ideias sobre este assunto.

Mas é esta mesma Rainha que vem ao seu povo com o discurso mais belo e motivador: que temos de reunir condições para cuidar e proteger as meninas do nosso reino, desse sistema monárquico e patriarcal.

Mas, no final do dia, a Rainha nem consegue questionar ou desafiar a indisciplina espiritual sexual do Rei que dorme ao seu lado.

Porque, afinal, a Rainha de Jon Snow não é uma Khaleesi.

Ela simplesmente existe por causa das virtudes de Jon Snow.

Essas reflexões e questionamentos não surgiram de repente; começaram muito antes dos meus 18 anos, numa infância e adolescência marcada pela observação silenciosa de comportamentos, estruturas e padrões que hoje consigo nomear. Ao longo do tempo, fui adquirindo ferramentas, de leitura, análise e escrita, que me permitem compreender melhor a sociedade na qual fui concebida e refletir sobre ela com mais profundidade.

A escrita tem sido a minha forma de comunicar este desafio. Pode parecer apenas uma gota no oceano, mas sei que é gota sobre gota que o oceano se enche. E é assim que acredito que mudanças reais podem começar, com coragem, com voz própria, com questionamento permanente.

Tenho a pretensão de ser mãe algum dia, independentemente de ter uma menina ou um rapaz. E quando me for perguntado por eles sobre os desafios da nossa sociedade, quero poder responder sem recorrer ao conformismo ou à covardia. Quero que saibam que é possível reconhecer a estrutura do poder, questioná-la, e agir de forma consciente, mesmo quando o sistema parece imutável.