Juventude Cabo-verdiana: Entre a Responsabilidade e a Reinvenção do Futuro

“Tem confiança! Não em mim, nem em regedores, padres ou polícias. Não em deuses, demónios, máquinas ou bandeiras. Tem confiança em ti próprio. Na inteligência que te permitirá ser melhor do que já és e no instinto do teu amor, que te fará merecer boa companhia.” (Fernando Savater, Ética para um Jovem)

A reflexão de Savater, dirigida a quem inicia o caminho da vida adulta, ajusta-se com particular pertinência à juventude cabo-verdiana. Num país jovem como Cabo Verde, com instituições democráticas firmes, mas com desafios persistentes, a confiança em si próprio e na própria capacidade de agir e saber agir é uma exigência, não um luxo.

A democracia que construímos ao longo de décadas é sólida, plural e pacífica. Mas ela exige participação, vigilância e intervenção constante. Cabo Verde foi e continua a ser o desafio de gerações. E, na verdade, pouco vale a arquitetura institucional se os jovens se afastarem da arena pública, se renunciarem ao debate, se desistirem da política ou, pior ainda, se se deixarem contaminar pelo ceticismo sem causa.

Vivemos numa época que o sociólogo Zygmunt Bauman descreveu como “líquida”: cheia de oportunidades, mas igualmente marcada pela instabilidade e pelas incertezas. Para a juventude cabo-verdiana, esse cenário significa que aspirar à excelência, na escola, no trabalho, na cidadania, se tornou indispensável. O jovem de hoje não pode limitar-se a observar; precisa pensar, intervir e participar. Como recorda Cícero, “o primeiro dos deveres que a moral social impõe aos homens é o dever da participação na vida política”. Uma democracia forte depende de cidadãos ativos e livres das amarras, e isso começa sempre pelos mais novos.

O afastamento dos jovens da política tem custos altos. Uma juventude apática é terreno fértil para a estagnação democrática. Quando os jovens deixam de participar, a política não se renova; cristaliza-se. E um país que não renova as suas ideias e lideranças perde vitalidade, capacidade de adaptação e força estratégica.

Por isso, é essencial que o poder público valorize verdadeiramente a participação juvenil, não tão-somente com ecos de discursos, mas com ações concretas. Isso implica integrar jovens nos processos de decisão, oferecer-lhes oportunidades reais de formação cívica e política, e criar condições para que possam contribuir para as políticas de educação, emprego, saúde, ambiente, cultura e inovação. Não basta exortar a juventude a participar: é preciso abrir portas e dar-lhes meios e oportunidades, sem ziguezagues.

Do lado dos jovens, há igualmente um caminho a cumprir. É urgente estimular o debate de ideias, a livre manifestação de opiniões e a construção de espaços de cidadania onde o pensamento crítico possa florescer. Como dizia Victor Hugo, “nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou”. Cabo Verde precisa dessas ideias, das novas, das ousadas, das que rompem com o já visto, e precisa que os jovens tenham coragem de as apresentar.

A consolidação das organizações juvenis, com estruturas credíveis e lideranças preparadas, é outro pilar central. A participação política não nasce no Parlamento; nasce nos bairros, nas escolas, nas universidades e nas associações. Uma juventude organizada é uma juventude mais capaz de influenciar o rumo do país.

Todas estas experiências, políticas públicas de juventude, valorização da participação cívica, aproximação intergeracional, contribuem para aprofundar a democracia cabo-verdiana. Uma democracia que, apesar de jovem, tem dado provas de maturidade, tolerância e estabilidade institucional. Mas que só continuará a florescer se os jovens estiverem presentes, atentos e ativos.

O futuro de Cabo Verde depende desta seiva e energia renovadora. Depende da juventude que acredita, que participa e que age. Porque, como lembrava Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. E a alma da juventude cabo-verdiana está longe de ser pequena. Resta, apenas, fazer dela o motor da transformação que o país merece e precisa.