Falta de Oportunidades ou Falta de aproveitamento?

Um dos assuntos que estão, novamente a tona, nos debates juvenis, familiares e até nas tribunas políticas é a chamada “falta de oportunidades”. Contudo, importa refletir com sinceridade – será que o problema reside realmente na ausência de oportunidades ou na falta de aproveitamento das que já existem?

Dois eximios pensadores africanos, que me inspiram, ajudam-nos a iluminar esta questão. Amílcar Cabral via a educação como a “primeira arma” de libertação e via nela o meio para formar um “homem novo”: consciente, inteligente, útil e progressista, capaz de compreender e transformar a sua realidade. Já Thomas Sankara afirmava que a educação é “a arma mais poderosa que podemos usar para transformar nosso destino”, pilar essencial da liberdade, do desenvolvimento e da emancipação.

Essas visões encontram eco no caminho que Cabo Verde tem vindo a trilhar. A partir do ano letivo 2016/17, iniciou-se a implementação gradual da gratuidade do ensino para todos os alunos do sistema educativo, concluida em 2020/21, abrangendo os alunos do 11º e 12º, beneficiando cerca de 115 mil alunos. É um marco historico – um passo decisivo rumo à universalização do acesso à educação e à formação de cidadãos mais preparados e críticos.

Trata-se, sem dúvida de um grande avanço social. Hoje, qualquer criança ou jovem cabo-verdiano ou residentes nas ilhas, podem ingressar numa escola sem que o factor económico se torne um obstáculo. É uma conquista que alivia o peso financeiro das famílias e reforça o principio da igualdade de oportunidades. No entanto, esta democratização do ensino exige também responsabilidade e atitude.

Muitos jovens ainda adotam uma postura passiva – estudam por estudar, sem propósito ou compromisso real com o crescimento pessoal e desenvolvimento do país. É fundamental cultivar uma mentalidade de excelência, de participação ativa, de questionamento e de iniciativa. Porque oportunidades, sim, existem, mas é preciso saber aproveitá-las.

Um exemplo concreto são os centros de formação profissional, instrumentos eficazes de capacitação e inclusão. No passado 21 de outubro teve a abertura oficial das formações profissionais de 2025, que representam mais uma via concreta para os jovens se qualificarem e integrarem o mercado de trabalho. Estes espaços formam não apenas futuros trabalhadores, mas também novos empreendedores e atores do desenvolvimento económico de Cabo Verde.

Mas, há outro fenómeno que não pode ser ignorado: a alta taxa de emigração, especialmente entre os jovens. Indubitavelmente, é um dos assuntos mais intrigantes que muitos o vêem como uma tragédia nacional, mas é importante salientar que a emigração faz parte da história e da identidade cabo-verdiana. Desde os primórdios, foi uma estratégia para busca de novas oportunidades.

Os exemplos abundam: a comunidade foguense e da brava, que emigrou para as Américas para a pesca da baleia; os jovens de Santiago e São Nicolau que partiram nos anos de 1960 e 1970 para os países baixos, concretamente, na cidade portuaria de Roterdão – Heemraadsplein. Será que os seus descendentes não o vêem como uma oportunidade bem aproveitada?

Desses movimentos nasceram comunidades fortes, que contribuiram – e ainda contribuem – para o desenvolvimento de Cabo Verde, mesmo à distância.

A diáspora cabo-verdiana é um património de sucesso. O exemplo de Moisés Rodrigues, eleito Mayor de Brockton (EUA) ou Roberto Lopes (Pico), jogador da nossa seleção nacional de futebol qualificada para o Mundial de 2026, demonstram como a emigração também pode ser uma oportunidade extraordinária.

Cabo Verde é feito de homens e mulheres batalhadores, que aprenderam a aproveitar as circunstâncias e a convertê-las em desenvolvimento. E essa força continua viva nas novas gerações – nas associações e movimentos que apostam na formação crítica e cívica dos jovens, como a Geração B-BRIGHT e a Coligação da Juventude dos PALOP, que trabalham para formar mentes comprometidas com o progresso do amado país e do prospero continente africano.

O …… Tucídides, na sua obra A Guerra do Peloponeso, escreveu: ” Quanto às ações realizadas durante esta guerra, evitei tomar as informações de que me aparecia e de me fiar nas minhas impressões pessoais. Tanto a respeito dos factos de que eu próprio fui testemunha como dos que me foram narrados por outros procedi de cada vez a verificações tão escrupulosas quanto possivel. Não foi um trabalho fácil porque acontecia que as testemunhas do mesmo acontecimento ofereciam versões discordantes, que variavam segundo as simpatias que tinham por um ou outro campo e segundo a sua memória. Pode acontecer que o público ache pouco atractiva esta história desprovida de romantismo. Eu considerar-me-ei satisfeito se ela for considerada útil por aqueles que quiserem ver claro nos acontecimentos passados como nos semelhantes ou similares, que a natureza humana nos reserva no futuro.” – Thucyide, La Guerre du Péloponnèse, Folio, Paris, 2000, p. 48.

Talvez o debate não deva ser apenas sobre a falta de oportunidade, mas sim sobre a falta de aproveitamento consciente e comprometido das oportunidades existentes. Porque, no fim das contas, o futuro de “Kabu Berdi” – e de qualquer nação – não depende apenas das condições externas, mas da vontade interna de cada cidadão em transformar circunstâncias em oportunidades.