Adventus, a Força da Preparação

O Advento é, por excelência, tempo de espera vigilante. Não de espera passiva, mas de preparação consciente. A palavra adventus, herdada do latim e equivalente ao grego parousia, carrega uma densidade histórica e simbólica profunda: a chegada de um Soberano, a vinda de alguém cuja presença exige Ordem, Dignidade e Prontidão. Nas cidades do Mundo Antigo, o adventus implicava a limpeza das ruas, o adorno das praças e o alinhamento das consciências. Não se recebia um Rei no improviso; preparava-se a cidade e, sobretudo, preparava-se o espírito livre!

Essa lógica da preparação atravessa a literatura bíblica, a filosofia política e a própria experiência histórica das sociedades que aprenderam, muitas vezes à custa de sofrimento, que nada de verdadeiramente valioso se sustenta sem vigilância.

Há conquistas que não são definitivas. A Democracia é uma delas.

Cabo Verde viveu, em 1991, um dos seus mais altos momentos civilizacionais. A transição para a democracia pluralista e a consagração constitucional de 1992 não foram meros actos jurídicos; foram escolhas morais, políticas e históricas. O país decidiu organizar-se segundo princípios de regras, limites e equilíbrios. Decidiu que o Poder não seria absoluto, nem personalizado, nem ungido por qualquer lógica providencial. Decidiu, em suma, submeter o Poder à Lei.

O princípio da separação de poderes é o coração desse pacto. Montesquieu, na sua obra O Espírito das Leis, advertiu com uma clareza que atravessou séculos: “Tudo estaria perdido se o mesmo homem, ou o mesmo corpo de principais, de nobres ou de povo, exercesse esses três poderes: o de fazer as leis, o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as divergências dos indivíduos.” Não se trata de uma abstração académica, mas de uma regra elementar de sobrevivência da liberdade.

Por isso, a Constituição da República de Cabo Verde de 1992 é inequívoca. O seu artigo 2.º, n.º 2 consagra que a República reconhece e respeita, na organização do poder político, a democracia pluralista, a separação e interdependência dos poderes e a independência dos Tribunais. Não como mero ornamento retórico, mas como coluna dorsal e estruturante do Estado de Direito Democrático.

Quando estes princípios são relativizados e/ou sonegados, não é apenas a arquitectura institucional que se fragiliza; é a própria confiança colectiva que se corrói. As democracias raramente colapsam de forma súbita. Como a história e a ciênciapolítica o demonstram, degradam-se silenciosamente pela normalização do desvio, pela banalização da ilegalidade, pela deslegitimação das instituições e pela tentativa de substituir regras por vontades e tribunais por praças públicas.

Yuval Noah Harari, em Homo Deus – História Breve do Amanhã, recorda-nos que as sociedades modernas vivem de narrativas partilhadas. Quando essas narrativas deixam de assentar na Razão, na Verdade e na Confiança Institucional, abre-se espaço para mitologias perigosas: líderes infalíveis, promessas impossíveis e soluções mágicaspara problemas complexos. O populismo alimenta-se precisamente desse vazio, oferecendo respostas simplistas a realidades que exigem responsabilidade, competência e limites.

É neste ponto que o Adventus ganha uma actualidade política incontornável. Preparar-se, hoje, é estar ATENTO. É recusar a tentação de salvadores providenciais. É compreender que nenhuma causa, por mais ruidosa que se apresente, pode justificar o atropelo à Lei. É, sobretudo, recordar que a liberdade não se defende apenas com palavras inflamadas, mas com respeito escrupuloso pelas instituições e pelo primado daLei.

A democracia exige virtudes cívicas. Exige contenção de quem governa e lealdade institucional de quem se opõe. Exige que a crítica não se transforme em corrosão, nem a discordância em intimidação. Quando actores políticos confundem o exercício do poder com uma missão pessoal e se auto-investem de uma legitimidade que dispensa regras e limites, o risco deixa de ser teórico para se tornar histórico.

O Adventus, enquanto metáfora, convida-nos a preparar a Casa Comum. A Democracia Cabo-verdiana é essa Casa. Não nasceu por geração espontânea, nem está blindada contra o desgaste do tempo. Exige manutenção diária, vigilância serena e compromisso ético. Num tempo de populismo exacerbado e de promessas ocas, estar preparado é saber distinguir entre esperança e ilusão.

Como escreveu e cantou o Pe. Zezinho: “É tempo de ser esperança. É tempo de comunicar. É tempo de ser testemunha de Deus neste mundo que não sabe amar.” No plano cívico, isso traduz-se em ser testemunha da Constituição, da Lei e da Liberdade, de forma responsável e comprometida.

O Adventus lembra-nos que a verdadeira força não está no grito, mas na preparação. Preparação das Consciências, das Instituições e da Cidadania. Porque a maior conquista de sempre de Cabo Verde, a Democracia e a Liberdade, só permanecerá viva se houver quem esteja disposto a prepará-la, a defendê-la e a transmiti-la, intacta,às gerações vindouras.

Sem Improvisos. Sem Messianismos. Com Responsabilidade. Com Vigilância. Com Esperança.