Bengala ou Cadeira de rodas?

Escrever é um ato de consciência. Mas como caracterizar a escrita de algo que não é um ser mas escreve mais e melhor que a maior parte dos humanos? Os chatbots da Inteligência Artificial já preencheem grande parte do dia de milhões de homens e mulheres. As conversas começam com perguntas simples como quem é o presidente da Argentina ou questões mais delicadas que têm a ver com a depressão ou com o suicídio. Adequam as respostas e o clima da conversa aos prompts que recebe e por isso a sensação de estarem a falar a mesma “língua” é reconfortante, e é justamente isso que a IA quer. Raramente discordam, raramente discutem, mas sempre tentam prestar vassalagem ao emissor dos prompts concordando, complementando e muitas vezes (para não dizer sempre) incentivando os raciocínios daqueles com quem conversam. Um cientista que gosto muito de nome Miguel Nicolelis diz que eles não são inteligentes e nem artificias. Primeiro porque a inteligência é reservada apenas à “matéria viva e matéria orgânica dos organismos” e é “propriedade adaptativa de um processo de seleção natural”. Num segundo ponto  não é artificial porque o que ela faz depende do trabalho humano a todos os níveis para a sua reprodução. E só para completar, o que a IA faz é um refogado daquele que já foi feito, ela não cria, ela reproduz.  Para completar esse raciocínio muito interessante, Miguel Nicolelis arremata que ela não vai substituir os humanos porque o cérebro não funciona em sistema digital. Isso parece animador e antagónico ao sistema apocalíptico que especialistas de tecnologica têm prevido para a nossa interação com as máquinas.

Estima-se que para cada prompt que uma pessoa emite ao chatgpt e ele responde é equivalente ao beber um copo de água. 5 copos de 200 ml equivalem uma água portanto 5 prompts é equivalente a 1 litro de água (a matemática pode ser outra, se a medida do copo for outra). É recomendado a um ser humano adulto que beba cerca de 4 litros de água por dia (muita gente não faz isso, mesmo que as garrafas de água personalizada têm ajudado nesta matéria e parabenizando a pessoa com uma frase afável tipo portaste-te bem ou meta do dia concluída, tudo em inglês é claro, é mais chique). Isto quer dizer que 20 prompts equivalem a 4 litros, o chatgpt concluiu a tua meta diária de água em poucos minutos. Não tens vergonha que uma máquina faça em poucos minutos aquilo que fazes (quando fazes) em um dia? É, eu também não tenho vergonha. Para que todos entendam a água é usada para ajudar a manter a temperatura dos data center para que eles não arrebentem com o calor que é consequência da transformação de dados que são utilizados para responder às nossas demandas. E voltando ao tema da vergonha, não é preciso tê-la porque a IA faz dezenas de tarefas mais e melhor do que a maioria de nós em vários temas. Inclusive há listas de que trabalhos tendem a desaparecer com o avanço da IA, é só pesquisar no velho Google ou dar de beber aos chatbots. Mas a mim o que mais me preocupa é a escrita, pelos motivos óbvios, com recurso a essas ferramentas. O início é uma bengala que ajuda a substituir os sinónimos, depois evoluiu para um estado de necessidade para quem diz: “Querido chatbot faz um texto em que o tema é x, humanize-o para o professor não descobrir que foste tu que escreveste, e se possível salpique com duas pitadas de expressões à Gabriel García Márquez. É aí que deixamos de usar a bengala para passarmos a ser transportados pela cadeira de rodas. O que era auxílio virou dependência! É claro que há pessoas que usam estes mecanismos de forma superlativa e tiram os melhores proveitos sem prejudicar as suas habilidades, a eles tira o chapéu e até peço um workshop. Os outros que ficam afetados e limitados pelo seu uso é que me preocupam. E pior, tenho a sensação que o cenário vai piorar. Por enquanto não utilizo muleta, nem bengala e muito menos cadeira de rodas. Porém, infelizmente um dia será a minha vez de utilizar, e aí já tenho bem claro que a cadeira de rodas não será a minha opção,nem que fosse a única possível.