Desafios de conservação em pequenos estados insulares em desenvolvimento: O caso de Cabo Verde

Parte 1: Reflexões sobre as Crises Interligadas da Biodiversidade e do Clima em Cabo Verde


Os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (PEID) estão na linha da frente das crises planetárias das alterações climáticas e da perda de biodiversidade. Devido à sua geografia, reduzida dimensão, isolamento e limitados recursos naturais, os PEID enfrentam vulnerabilidades amplificadas. O aumento das temperaturas e a alteração dos regimes de precipitação ameaçam as suas economias, sociedades e até a sua própria existência. Estes desafios afetam diretamente todos os setores das economias insulares — da agricultura e pesca ao turismo — e têm, portanto, efeitos em cascata sobre a segurança alimentar, os meios de subsistência e as tradições culturais.
Cabo Verde constitui um exemplo marcante dessas vulnerabilidades. Embora cada ilha possua o seu próprio caráter e desafios ecológicos, este artigo centra-se na ilha da Brava, a menor ilha habitada do arquipélago, onde se concentra o nosso trabalho.

 

O Contexto Climático de Cabo Verde

Os dados pluviométricos históricos, de 1885 a 2024, revelam uma divisão clara:
• 1885–1957: os padrões de precipitação eram mais equilibrados, com secas a ocorrer em intervalos mais longos.
• 1957–presente: as secas tornaram-se duas vezes mais frequentes e significativamente mais severas.

Desde 2017, Cabo Verde enfrenta mais um período prolongado de seca — o que talvez se possa descrever como o “novo normal”. Ao mesmo tempo, as ilhas não estão imunes ao extremo oposto: cheias repentinas que podem devastar infraestruturas, a agricultura e ecossistemas frágeis em poucas horas. Além do impacto devastador da escassez de água e das inundações, deslizamentos de terra e atividade sísmica aumentam ainda mais a vulnerabilidade das ilhas.

Esta instabilidade climática deixa tanto as comunidades humanas como não humanas — cujos destinos estão cada vez mais interligados num ecossistema altamente modificado — a lutar para se adaptar. Embora os impactos sejam sentidos em todo o país, as populações rurais suportam desproporcionalmente os efeitos dos eventos climáticos extremos.

Atualmente, a agricultura representa apenas cerca de 8% do PIB de Cabo Verde, mas cerca de um terço da população vive em comunidades rurais que dependem direta ou indiretamente dessa atividade. Quase 45% da população rural é considerada pobre segundo os padrões nacionais. Nas últimas duas décadas, cerca de 85.000 cabo-verdianos rurais emigraram para áreas urbanas ou para o estrangeiro.

As causas desta emigração são múltiplas — históricas, culturais e sociais — mas é inegável que a exposição ao risco climático constitui um fator determinante no êxodo rural.

O Contexto da Biodiversidade em Cabo Verde
Apesar do clima árido, das transformações na paisagem e de uma longa história de alterações ecológicas, Cabo Verde abriga uma notável variedade de biodiversidade terrestre e marinha, grande parte dela endémica.

Biodiversidade Terrestre

Os ecossistemas terrestres de Cabo Verde, embora de pequena escala, são o lar de espécies únicas e emblemáticas:

    • Árvores e plantas: incluindo a Dragoneira de Cabo Verde (Dracaena caboverdeana), o Pau-ferro (Sideroxylon marginatum), a Palmeira-das-Canárias de Cabo Verde (Phoenix atlantica) e mais de 92 espécies endémicas adaptadas às condições únicas do arquipélago.

    • Répteis: Cabo Verde é um “hotspot” para répteis, com vários geckos e lagartos endémicos.

    • Aves: as ilhas abrigam populações residentes e migratórias, incluindo endemismos raros como a Garça-vermelha (Ardea purpurea bournei) e a Cagarra (Calonectris edwardsii).

    • Insetos: embora menos estudados, os insetos são polinizadores essenciais e parte fundamental da cadeia alimentar que sustenta répteis e aves.

A flora endémica de Cabo Verde sobreviveu a sucessivas transformações ecológicas — desde a expansão das monoculturas de cana-de-açúcar e algodão até à adoção generalizada da agricultura de sequeiro de milho, feijão e abóbora. As comunidades rurais desempenharam um papel vital nessa sobrevivência, utilizando e conservando espécies vegetais para fins ornamentais, medicinais e culturais, com base no conhecimento ecológico tradicional.

Biodiversidade Marinha

As águas atlânticas que cercam o arquipélago são igualmente únicas. Condições ecológicas específicas — como a estreita plataforma continental, a reduzida zona entremarés, a sazonalidade da produtividade biológica marinha e a escassa precipitação — resultam numa baixa densidade de organismos marinhos, mas com um ecossistema excecionalmente frágil e diverso.

    • Peixes: mais de 20 espécies endémicas, incluindo espécies criptobênticas e caranguejos exclusivos.

    • Tartarugas marinhas: a tartaruga-careta (Caretta caretta) faz de Cabo Verde o terceiro mais importante local de nidificação do mundo.

    • Mamíferos marinhos: golfinhos são visitantes frequentes, e baleias-jubarte migram para as ilhas para reprodução.

    • Tubarões e raias: 14 espécies de tubarões de seis famílias — incluindo tubarões-tigre, tubarões-de-pontas-pretas e tubarões-limão — juntamente com raias redondas e mobulas.

    • Invertebrados: os caracóis-cone e outros moluscos contribuem para a singularidade dos ecossistemas marinhos.

    • As águas atlânticas que rodeiam o arquipélago são igualmente singulares. Condições ecológicas específicas, como a estreita faixa da plataforma continental, a reduzida zona entremarés, a sazonalidade da produtividade biológica marinha e a escassa precipitação, resultam numa baixa densidade de organismos marinhos, mas num ecossistema excecionalmente frágil e diverso. Essas condições únicas proporcionam um habitat de elevado endemismo:

    • Peixes: mais de 20 espécies endémicas, juntamente com espécies criptobênticas e caranguejos únicos.

    • Tartarugas marinhas: a tartaruga-careta (Caretta caretta), para a qual Cabo Verde é o terceiro local de nidificação mais importante do mundo.

    • Mamíferos marinhos: os golfinhos são visitantes frequentes e as baleias-de-bossa migram para estas águas para se reproduzirem.

    • Tubarões e raias: 14 espécies de tubarões pertencentes a seis famílias, incluindo o tubarão-tigre, o tubarão-de-ponta-preta e o tubarão-limão, além de raias como a raia-de-cauda-redonda e a raia-manta.

    • Invertebrados: os búzios-cones e outros moluscos contribuem para a singularidade dos ecossistemas marinhos.

Ameaças:

Esta biodiversidade frágil enfrenta ameaças crescentes, muitas das quais estão diretamente ligadas às pressões socioecológicas já descritas:

    • Alteração do uso da terra e pastoreio livre descontrolado

    • Alterações climáticas e desertificação

    • Perda de conhecimento ecológico tradicional

    • Espécies invasoras que competem com ou substituem as nativas

    • Práticas de pesca insustentáveis, incluindo a pesca industrial intensiva

    • Degradação de habitats marinhos

Muitas dessas ameaças estão intimamente ligadas ao êxodo rural: o abandono das áreas agrícolas aumenta o pastoreio livre, enfraquece os controlos sociais e reduz a disponibilidade de mão-de-obra para a restauração ecológica.

Análise das Causas e Caminhos a Seguir

Os desafios de conservação em Cabo Verde não são apenas ecológicos — são também históricos, sociológicos e políticos. Eles refletem, muitas vezes, injustiças históricas contra comunidades humanas e não humanas. Tentar reverter estas tendências de degradação ambiental requer evitar explicações simplistas e superficiais sobre os atuais regimes de uso dos recursos, frequentemente rotulados como “sobreutilização” ou “má gestão” por parte das comunidades rurais.

Uma análise de ecologia política revela como a agricultura colonial, a pobreza estrutural e a migração contribuíram para as atuais crises socioecológicas. Compreender essas causas profundas oferece bases valiosas para o desenvolvimento de estratégias pragmáticas de conservação, capazes de equilibrar a proteção da biodiversidade com as realidades dos meios de vida rurais e as necessidades de desenvolvimento.