A política começa na escolha do partido

A política começa na escolha do partido Critérios, valores e identidade partidária como base da responsabilidade democrática

O momento político que vivemos, marcado pela elaboração de listas e por movimentos de reposicionamento, trouxe para o espaço público uma discussão que merece ser tratada com muita atenção: os critérios que orientam a escolha partidária e o papel dos partidos na organização da democracia.

Tem-se assistido, com alguma frequência, a uma narrativa que procura relativizar a centralidade dos partidos políticos, apresentando-os como estruturas excessivamente dominantes ou como obstáculos à afirmação individual. Esta leitura, ainda que encontre eco em experiências concretas, não tem pernas para resistir a uma análise mais rigorosa do funcionamento das democracias representativas. 

Como sublinhou Elmer Eric Schattschneider, a democracia moderna é impensável sem partidos políticos. O próprio autor foi mais longe ao defender que “o conflito e a competição partidária são elementos vitais para uma democracia representativa efetiva e inclusiva”. Não se trata, portanto, de uma imperfeição do sistema, mas de uma das suas condições de funcionamento. 

Os partidos são o espaço onde os interesses se estruturam, onde as ideias se agregam e onde as propostas ganham forma. São também o mecanismo através do qual o eleitor interpreta o sistema político e faz escolhas com base em referências identificáveis. 

É neste quadro que se estabelece o Pacto de Representação. O cidadão não escolhe apenas uma pessoa. Escolhe um projeto político, uma visão de sociedade e um conjunto de compromissos assumidos coletivamente. O eleito atua enquadrado por esse projeto, respondendo não apenas à sua vontade individual, mas a uma orientação política que lhe confere sentido e responsabilidade. 

A qualidade desse pacto depende, em grande medida, da forma como escolhemos. Em Cabo Verde, essa escolha continua muitas vezes condicionada por fatores que pertencem mais ao domínio da experiência pessoal do que ao da reflexão política. A tradição familiar, a identificação emocional, episódios do passado ou circunstâncias individuais acabam por influenciar decisões que deveriam ser orientadas por critérios mais estruturantes. 

Uma escolha política com impacto coletivo exige outro nível de exigência. 

Escolher um partido implica reconhecer o quadro de valores que o orienta, compreender o seu posicionamento ideológico e avaliar o projeto de sociedade que propõe. Implica, também, perceber como esses elementos se traduzem na ação política. 

Neste plano, a identidade partidária assume um papel determinante. 

O MpD construiu, ao longo do tempo, uma identidade assente na valorização da liberdade individual, na economia de mercado, na abertura ao mundo e na promoção de um Estado moderno, orientado para a criação de oportunidades. O PAICV, com um percurso histórico próprio, estrutura a sua ação numa matriz em que o Estado assume uma presença mais central na organização económica e social. 

Estas diferenças são estruturantes. Permitem ao eleitor compreender o que está em causa e fazer escolhas com base em referências consistentes. 

É também neste contexto que se evidencia uma fragilidade no sistema político: a ausência de uma identidade claramente definida em alguns partidos. No caso da UCID, essa indefinição torna-se particularmente relevante. Não é evidente o seu posicionamento ideológico, nem o projeto de sociedade que propõe de forma consistente. 

E essa clareza é essencial. Sem ela, a escolha deixa de ser orientada por referências políticas estruturadas e passa a depender, em larga medida, da circunstância. 

A pertença a um partido político insere-se neste quadro de exigência. Trata-se de uma decisão livre, como deve ser em qualquer democracia. Mas essa liberdade adquire significado quando é exercida com consciência do que está em causa. Não comecei o meu percurso político onde hoje me encontro. Cheguei aqui por convicção, construída ao longo do tempo, através do confronto de ideias, da reflexão e da necessidade de alinhar a minha participação política com um conjunto de valores e princípios. 

Esse percurso permitiu-me compreender algo essencial: a liberdade de escolher um partido político só ganha verdadeiro significado quando é exercida com base em critérios certos. Quando assenta numa leitura consciente do que cada partido representa, do projeto de sociedade que propõe e do papel que queremos desempenhar nesse processo coletivo. 

É essa exigência que dá densidade à escolha. É essa exigência que transforma uma decisão individual num compromisso político. 

A vida partidária implica debate, divergência e construção. Implica a participação em processos que conduzem à formação de uma vontade coletiva que, por natureza, não coincide integralmente com as posições individuais. É nesse espaço que se afirma a responsabilidade política e se constrói a liderança. 

Quando essa dimensão coletiva é substituída por uma lógica estritamente individual, a relação com o partido perde consistência e o compromisso tende a diluir-se. Os partidos deixam de ser comunidades políticas estruturadas e passam a ser espaços de circulação circunstancial, com impacto direto na confiança que os cidadãos depositam no sistema. 

A discussão sobre o alegado excesso de poder dos partidos talvez devesse, por isso, ser recentrada. O desafio reside na preservação da sua identidade, da sua coerência e da sua capacidade de representar projetos políticos consistentes. 

A política exige, em cada momento, um exercício de responsabilidade que começa na forma como escolhemos e naquilo que escolhemos representar. 

Num tempo em que a volatilidade tende a substituir a consistência e em que a circunstância procura ocupar o lugar da convicção, torna-se ainda mais relevante afirmar critérios, preservar identidades e reforçar a ideia de compromisso político como base da confiança democrática