Cabo Verde é, por excelência, um dos países mais vulneráveis às mudanças e aos choques externos. A nossa reduzida dimensão económica, a forte dependência das importações e a insularidade fazem com que qualquer cenário internacional adverso tenha impactos diretos e significativos na nossa economia e, consequentemente, na vida das famílias e das empresas.
Nos últimos meses, temos assistido a um aumento considerável dos preços dos combustíveis e da eletricidade. Esta realidade não pode ser analisada de forma isolada, tendo em conta o contexto internacional marcado por profundas incertezas e instabilidade. As tensões no Médio Oriente, o prolongamento da guerra entre a Ucrânia e a Rússia, o consequente agravamento das tensões entre a Rússia e a NATO, bem como a instabilidade política e económica na Venezuela, um dos países com maiores reservas de petróleo do mundo, são fatores que contribuem para a volatilidade dos mercados energéticos.
Num país como Cabo Verde, que depende fortemente da importação de combustíveis fósseis para a produção de eletricidade e para o funcionamento da economia, qualquer aumento do preço do petróleo tem efeitos em cadeia. A subida do custo dos combustíveis encarece a produção de eletricidade, o transporte de pessoas e mercadorias e, de uma forma geral, os custos de funcionamento das empresas. Por sua vez, o aumento dos custos de produção reflete-se no preço final dos bens e serviços, pressionando o poder de compra das famílias e reduzindo a competitividade da economia nacional.
É precisamente neste contexto que a transição energética deve deixar de ser encarada apenas como uma questão ambiental e passar a ser assumida como uma verdadeira estratégia de desenvolvimento económico e social.
Cabo Verde possui condições naturais particularmente favoráveis para acelerar esta transição, sobretudo através do aproveitamento da energia solar e eólica. O investimento sério e consistente nestas fontes de energia renovável pode contribuir, por um lado, para reduzir os custos de produção de eletricidade e, por outro, para diminuir a exposição do país à volatilidade dos preços internacionais dos combustíveis fósseis.
Uma maior aposta nas energias renováveis permitiria criar um sistema energético mais previsível, sustentável e resiliente. E isto tem uma importância que vai muito além do sector da energia. Toda a atividade económica depende, direta ou indiretamente, de energia. Quando o preço da eletricidade aumenta, aumentam também os custos de produção, conservação, transformação, transporte e comercialização. No final, é o consumidor que acaba por suportar uma parte significativa desse aumento.
Por outro lado, acelerar a transição energética significa reduzir a dependência externa de Cabo Verde. Quanto maior for a nossa capacidade de produzir energia a partir dos recursos naturais que temos disponíveis, menor será a nossa vulnerabilidade perante crises internacionais, conflitos geopolíticos ou oscilações abruptas dos preços do petróleo.
A transição energética pode, igualmente, constituir uma oportunidade para a criação de novas empresas, novos empregos e novas áreas de especialização. O desenvolvimento das energias renováveis exige investimento em tecnologia, engenharia, instalação, manutenção, investigação e formação profissional. Ou seja, não se trata apenas de substituir uma fonte de energia por outra; trata-se de construir novas capacidades económicas e tecnológicas no país.
É por isso que a transição energética deve ser encarada como uma prioridade nacional e como um dos pilares do pleno desenvolvimento de Cabo Verde. Não pode continuar a ser apenas matéria de discursos políticos, de programas de Governo ou de crónicas ocasionais. É necessário transformar as intenções em políticas concretas, com metas claras, investimento consistente e uma visão de longo prazo.
Cabo Verde não controla o preço do petróleo nos mercados internacionais, nem pode determinar o rumo dos conflitos ou das crises geopolíticas que afetam o mundo. Mas pode decidir quanto quer depender desses fatores.
Investir na transição energética é, por isso, investir na soberania económica, na competitividade das empresas, na redução dos custos para as famílias, na sustentabilidade ambiental e, sobretudo, na capacidade de Cabo Verde construir um futuro menos vulnerável aos choques externos.
A transição energética não é apenas uma opção para o futuro. É uma necessidade do presente e uma condição para o desenvolvimento sustentável e pleno de Cabo Verde.