Prostituição política em Cabo Verde

É tempo de escrever aquilo que muitos têm medo de escrever, tanto homens quanto mulheres, quando o assunto é sobre dinâmicas de poder e sexo nas instituições em Cabo Verde. Tenho apenas 28 anos de idade, e desde os 21 que frequento os ambientes partidários, institucionais, acadêmicos e políticos em Cabo Verde.

Muito cedo nesses ambientes fui vista como “carne fresca” no mercado. Assim é, e ainda são esses os olhares sobre mulheres jovens dentro desses espaços. Desde tenra idade, sempre tive interesse por política. Acabei por estudar, durante o meu período de universidade, um curso que tem a ver com política, e todas as minhas movimentações desde então têm sido sempre com a política presente em diferentes frentes.

A vulnerabilidade de ser bastante jovem e mulher dentro destas instituições não é fácil. Primeiramente, temos o fator da dinâmica de poder existente dentro de um sistema ainda patriarcal e extremamente machista, que ainda vê a mulher apenas como um corpo a ser usado e nada mais.

As histórias que tenho guardadas comigo dariam um livro tranquilamente, entre dinâmicas que envolvem a minha situação de ser mulher e jovem com homens que têm algum poder econômico e, principalmente, poder institucional em Cabo Verde. Sempre fui excelente aluna, aprendi muito cedo a exercitar meu cérebro e sempre entendi que ser mulher é muito mais do que ter um corpo; sempre entendi que podia pensar, refletir e usar meu raciocínio lógico em qualquer vertente que eu quisesse. Muito cedo compreendi que meu cérebro é o meu maior trunfo, por isso exercitá-lo é função sagrada para mim, e sempre fiz assim desde criança: pensar, estudar, refletir e raciocinar sempre foram meu passatempo favorito, graças ao meu pai, que me criou com este mantra desde que me entendo por gente neste Universo.

Eu talvez tenha tido o privilégio de ter esta educação específica por parte do meu pai, mas quantas outras mulheres não tiveram este modelo de educação?

Os assédios sexuais durante essas épocas eram violentos, mas o silêncio era pior — silenciamento por parte de homens, mas também por mulheres; alguns por medo, outros simplesmente por conveniência. Já fui empurrada tanto por homens como por mulheres para me prostituir com o objetivo de ter algo em troca, uma abordagem bem crua e agressiva que exigia que eu colocasse o meu corpo e disposição para ter algum benefício.

Não pensem que é fácil ser uma mulher jovem, estar com a mente concentrada e não se permitir ou deixar cair em situações do tipo. O teste é duro, e às vezes, por um fio, não conseguimos manter esta dignidade. Os teus valores e princípios têm que estar muito bem firmes no teu ser para não cair neste jogo de promiscuidade e prostituição. Não há outro nome para casos do tipo que não seja prostituição: pôr o teu corpo a serviço para ter em troca algo é prostituição, sim, seja ela indireta ou direta, e falo tanto de homens quanto de mulheres.

Tem um ex-professor universitário meu que até hoje não falamos; fiz um semestre inteiro da sua disciplina sentada dentro da sala sem conversarmos. Ele não estava à espera da minha reação no dia em que resolveu cruzar a linha. Encontrávamo-nos no corredor da universidade, e ele nem conseguia me encarar nos olhos. Já tive um deputado nacional a correr a mão nas minhas costas até em cima da minha bunda; outros já me convidam para passar férias em outras ilhas à custa do dinheiro público, claramente.

Ofertas de jantares, festas, dinheiro, presentes, sorrisos falsos, de cafetões políticos que têm uma única intenção: cair na fantasia ilusória de ter um corpo jovem apenas. Fui chamada por várias vezes de “exagerada”, “chata” ou até “imatura” por homens que estão sentados no nosso Parlamento até hoje e tomam decisões por nós todos os dias.

Imaginem o paradoxo: um homem com este pensamento a tomar alguma iniciativa de política pública feminina. Insano de pensar, não é? Será que homens que não sejam disciplinados sobre este assunto deveriam decidir por nós ou se quiserem nos representar? Faço apenas um questionamento, penso que devíamos questionar.

Quando estudei Relações Internacionais, aprendi que, para compreender o sistema internacional, utilizamos três vertentes: poder, dinheiro e sexo. Vivemos em épocas em que, em Cabo Verde, temos tido todo este discurso sobre paridade de gênero, lei da paridade, empoderamento feminino e outras questões.

Mais o problema torna-se mais complexo e desafiador quando, hoje em dia, temos mulheres jovens que entram nas instituições com o intuito de dar o corpo em oferta para conseguir trabalho ou cargo. São jovens meninas que têm mesmo essa intenção, de pôr-se à disposição corporal para ter algum benefício. Elas conseguem mesmo entrar nesses espaços, sem nenhuma meritocracia, sem nenhum esforço intelectual; o único requisito exigido é “pôr o corpo a serviço”.

Enquanto isso, a jovem mulher que estuda, esforça-se, aprimora suas habilidades, investiga, pensa, reflete e tenta ter alguma consistência mental é posta de lado pelo facto de ter escolhido não se deitar com algum homem que tenha algum tipo de poder. O esforço ainda é maior para sobreviver a situações do tipo, porque a maioria dos homens que alimentam esta mentalidade e a praticam, outros não concordam, mas preferem o silêncio. E quem aceita o silêncio em situações do tipo não é muito diferente do praticante; ainda para piorar, existem as “Marias” que, sem competência profissional ou intelectual, fazem-te frente pela escolha de se prostituir.

Onde fica o espaço para jovens mulheres que querem realmente conquistar os espaços pelo esforço intelectual? Por serem boas no seu trabalho e nas suas reflexões? Onde fica?

A mulher por si só já tem séculos de desvantagens quando falamos de dinâmicas de poder. Já avançamos muito, mas ainda há um longo caminho a percorrer para que possamos realmente criar espaços seguros, onde mulheres tenham ascensão de carreira dentro do meio político — e não só — sem necessidade de recorrer a situações do tipo, ou sentir-se obrigadas a cometer tais atos para ter algum reconhecimento.

O silêncio, até hoje, nunca ajudou nenhuma luta ou revolução em contextos sociais do tipo. Nosso processo histórico como nação prova de todas as formas que, através do silêncio, do esforço e da luta, nunca alcançaríamos a nossa liberdade. A paz sem voz não é paz; é simplesmente medo.

Temos que tomar bastante cuidado em vangloriar homens de altos cargos na nossa política apenas por terem fama de ter várias mulheres. Isso mostra claramente a mediocridade existente, não apenas em homens, mas principalmente em mulheres que assistem e dão glória ao homem que escolhe usar corpos femininos e depois descarta, como se fossem produtos de supermercado.

Lembre-se de tantas situações em conferências ou encontros: essas mulheres vão para tudo, menos para aprender. A meta mais importante é chegar ao fim para ter a migalha de atenção do homem com poder — um poder que o povo lhe deu, pois ele é funcionário público. Definitivamente, a “aura do poder” faz milagres e magias, trazendo ilusões.

Manter postura e integridade em meios desse tipo não é fácil; os testes são duros, as agressões são sujas, violentas, e o silenciamento é profundo.

Minha maior memória talvez seja quando rejeitei de forma firme as “virtudes” de JonSnow, um homem com um reinado de 20 anos, cheio de qualidades e excelência. Ninguém ainda, atualmente, em Cabo Verde conseguiu alcançar tal reinado dessa forma, e talvez nunca alguém venha a fazê-lo. Entre o paradoxo de iludir-se pela aura de poder ou aceitar o beijo que me foi pedido de forma nada elegante neste caso, escolhi dizer não. Não apenas um não por mim, mas por todas as mulheres que algum dia sentiram vulnerabilidade, medo de perder trabalho, ou pressão para abrir mão da própria dignidade.

Para garantir que jovens meninas possam ter estruturas seguras para exercer pensamento crítico de forma digna e íntegra, é necessário resistir todos os dias. Sendo jovem e mulher, não pensei que seria fácil dar essa resistência diariamente em um meio que ainda é extremamente masculino e patriarcal. Há que ter muita força e frieza na maior parte do tempo para gerir situações do tipo. O corpo pode apodrecer, mas a mente e o espírito permanecem livres, fortes e eternos.