Cabo Verde entra em 2026 com eleições legislativas previstas para maio e presidenciais em novembro, num quadro que, à primeira vista, sugere estabilidade institucional e normalidade democrática. No entanto, por detrás dessa aparente tranquilidade, emerge um fenómeno que merece atenção séria e reflexão aprofundada: o progressivo distanciamento da juventude em relação aos partidos políticos. Não se trata de um detalhe estatístico, mas de um sinal político relevante sobre a qualidade da nossa democracia e a sua capacidade de renovação.
A sondagem nacional realizada pela Afrosondagem, entre 26 e 30 de dezembro de 2025, é particularmente elucidativa. Entre os jovens dos 18 aos 24 anos, apenas 23% declaram intenção de voto no MpD e 24% no PAICV, enquanto 21% afirmam que não votariam em nenhum partido ou dizem não saber ou preferem não responder. Trata-se da faixa etária com maior fragmentação política e menor identificação partidária, em contraste evidente com os eleitores mais velhos, que revelam maior definição e fidelização eleitoral. A questão que se impõe vai além da aritmética eleitoral: o que está a afastar os jovens cabo-verdianos dos partidos políticos?
Cabo Verde continua a ser um país jovem. De acordo com o Inquérito sobre as Condições de Vida dos Agregados Familiares de 2024, 27,4% da população tem menos de 15 anos e 16,1% situa-se entre os 15 e os 24 anos. Todavia, esta maioria demográfica enfrenta vulnerabilidades estruturais profundas. Cerca de 12% dos jovens entre os 15 e os 17 anos estão fora do sistema de ensino, situação que afeta sobretudo os rapazes, e mais de 41 mil jovens encontram-se fora da escola e sem emprego, segundo dados do INE. A taxa de desemprego jovem, atualmente em 20,1%, revela um bloqueio persistente na transição para a vida adulta. Estes números não são neutros politicamente; produzem frustração, insegurança e um sentimento difuso de exclusão.
Pierre Bourdieu lembrava que a juventude não é uma categoria homogénea, mas um espaço social atravessado por desigualdades de acesso a recursos, oportunidades e reconhecimento. Quando o sistema político não consegue responder às expectativas mínimas de integração social e económica, o afastamento não se traduz necessariamente em protesto visível, mas em silêncio, indiferença aparente ou indecisão eleitoral. Não é a democracia que os jovens rejeitam, mas a forma como esta se lhes apresenta.
Este fenómeno inscreve-se numa crise de representação mais ampla, observada em várias democracias contemporâneas. Bernard Manin descreveu a passagem de uma democracia dos partidos para uma democracia do público, marcada pelo enfraquecimento dos vínculos partidários tradicionais e pela crescente desconfiança em relação aos intermediários políticos. Em Cabo Verde, os dados da Afrosondagemmostram que os jovens não se deslocam massivamente para partidos alternativos ou para opções extremas; preferem antes o “nenhum deles” ou a suspensão da escolha. É uma forma silenciosa de distanciamento, próxima do que Albert Hirschman designou como exit, quando a voz parece não produzir efeitos.
Importa, por isso, interrogar o papel dos próprios partidos políticos. Têm eles apostado verdadeiramente nos jovens como atores centrais do processo político, ou continuam a tratá-los sobretudo como destinatários retóricos de discursos e promessas eleitorais? A presença juvenil em cargos de decisão relevante permanece limitada e, muitas vezes, simbólica. Hannah Arendt lembrava que a política existe onde há palavra e ação; se os jovens não encontram espaço para falar e agir com impacto real, dificilmente se reconhecerão nas estruturas partidárias. Falar sobre juventude não é o mesmo que permitir que a juventude fale por si e participe nas decisões.
A esta crise de representação soma-se um desencontro estrutural entre o sistema educativo e o mercado de trabalho. O investimento na escolarização, embora fundamental, não foi acompanhado por uma transformação económica capaz de absorver qualificações crescentes. O resultado é uma geração mais formada, mas frequentemente subempregada, precarizada ou empurrada para a emigração. ZygmuntBauman descreveu este cenário como típico da modernidade líquida, marcada por trajetórias instáveis, identidades fragmentadas e futuros constantemente adiados. Num contexto assim, discursos políticos excessivamente formais ou desligados da experiência concreta dos jovens perdem capacidade de mobilização.
A emigração juvenil, por sua vez, não é apenas uma resposta económica, mas também cultural e simbólica, alimentada pelas redes familiares e pelo imaginário da diáspora. Para muitos jovens, o horizonte de realização pessoal e profissional parece estar mais fora do país do que dentro dele. Como defendeu Amartya Sen, o desenvolvimento deve ser entendido como expansão de liberdades reais; quando essas liberdades são percebidas como mais acessíveis no exterior, o vínculo político interno enfraquece inevitavelmente.
Apesar deste quadro, o associativismo jovem continua a ser um espaço relevante de participação cívica em Cabo Verde. No entanto, permanece pouco integrado nos processos de decisão política. Robert Putnam demonstrou que democracias robustas dependem de capital social ativo e de redes de confiança; ignorar esse potencial é comprometer a renovação democrática.
A indecisão dos jovens não é, portanto, um vazio político. É uma interpelação dirigida aos partidos, às lideranças e ao próprio modelo de participação democrática. Os jovens cabo-verdianos não estão ausentes da política; estão à espera de uma política que os reconheça, que fale a sua linguagem e que lhes ofereça perspetivas reais de futuro. Se os partidos quiserem reconquistar esta geração, terão de ir além da retórica eleitoral e apostar seriamente na renovação das lideranças, na abertura de espaços efetivos de poder e numa relação mais horizontal com a sociedade.
Como escreveu Antonio Gramsci, “o velho está a morrer e o novo tarda a nascer”. A juventude cabo-verdiana encontra-se precisamente nesse intervalo. Cabe à política decidir se continuará a ignorar este silêncio, ou se saberá escutá-lo e transformá-lo em força democrática.